Abaixo artigo que compara a concepção de socialismo em Marx e Lênin, escrita pelo sociólogo indiano, residente nos Estados Unidos, Paresh Chattopadhyay, "O contéudo econômico do socialismo em Lênin é o mesmo que em Marx?", publicado originalmente na Revista Enfrentamento, do Movaut - Movimento Autogestionário.
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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018
O contéudo econômico do socialismo em Lênin é o mesmo que em Marx?
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segunda-feira, 13 de julho de 2015
Marxismo Autogestionário e Anarquismo
Marxismo Autogestionário e Anarquismo
Nildo Viana
Qual a diferença entre marxismo autogestionário (outros usam
outros nomes, mas aqui cabe destacar que usamos marxismo autogestionário como
sendo a forma/nome contemporânea do marxismo autêntico, que sempre foi
“autogestionário” sem usar tal palavra e tão-somente para distingui-lo do
pseudomarxismo, o leninismo e seus derivados e para expressar sua manifestação
contemporânea) e anarquismo? Ao ser questionado diversas vezes sobre isso,
então torna-se necessário explicitar de forma mais estruturada o que distingue
um do outro.
Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que se trata do
marxismo autogestionário e não de qualquer suposto “marxismo”, pois o
pseudomarxismo leninista, trotskista, stalinista, maoísta, guevarista, entre
outros, são deformações do caráter autogestionário do marxismo e por isso são
muito mais distantes do anarquismo. O marxismo autogestionário tem proximidade
com alguns elementos do anarquismo, especialmente seus princípios fundamentais.
Estes princípios fundamentais seriam a tese da abolição imediata do aparato
estatal, recusa e crítica das autoridades e formas de dominação e hierarquias
sociais. O marxismo autogestionário também aponta para tais princípios, mas, no
entanto, não é “anarquista”, a não ser que se reduza o anarquismo a isso. Da
mesma forma, o marxismo autogestionário não se reduz a isso e tem outros
princípios fundamentais, alguns que se encontram em algumas correntes
específicas do anarquismo, outras não.
O marxismo autogestionário tem como princípios fundamentais
os seguintes: a história das sociedades classistas é a história da luta de
classes; o proletariado é a classe revolucionária de nossa época; a
autoemancipação proletária (revolução proletária realizada pela classe operária
e seus aliados) é a forma de realização da emancipação humana (humanismo
revolucionário, concreto); a autogestão é a essência da nova sociedade que
emerge após o capitalismo, não sendo “parte dela”, mas sua essência e se
generalizando pelo conjunto das relações sociais; a revolução proletária só
pode ser vitoriosa se abolir o Estado e o capital, sem a ideologia do “período
de transição”; as organizações revolucionárias devem ter uma estratégia
revolucionária e superar o reboquismo e o vanguardismo; a burocracia é uma
classe social contrarrevolucionária e por isso deve ser combatida, bem como
todas as organizações burocráticas (partidos, sindicatos, Estado, etc.); a luta
cultural é uma das ações fundamentais a ser efetivada pelos grupos revolucionários;
é necessário que a estratégia revolucionária unifique meios e fins e coloque
como fundamental o objetivo final (autogestão social) e este determina os
meios, bem como, derivado disso, é necessário evitar concessões
contrarrevolucionárias (participação em democracia burguesa, por exemplo).
Assim, o marxismo autogestionário tem proximidade com
determinadas tendências do anarquismo e afastamento de outras. O marxismo
autogestionário é oposto ao anarcoindividualismo e ao anarcossindicalismo. O
primeiro é devido ao seu caráter burguês (individualista) e o segundo ao seu
vínculo com os sindicatos, organizações burocráticas (com exceção do início do
capitalismo, seu período heroico antes da burocratização). Também é muito
distante do anarquismo dogmático, que simplifica e reduz o anarquismo a
determinadas ideias (ou pensamento de determinado pensador anarquista) que se
tornam dogmas e motivo para recusar, julgar, condenar, todos os que não se
encaixam nelas ou então tudo que não é “anarquismo” (na forma exata que o
dogmático definiu, ou seja, sua corrente e/ou interpretação).
Em relação ao que denominamos anarquismo revolucionário, no
qual o anarcocoletivismo e o anarcocomunismo se encaixam, as diferenças são bem
menores, desde que sejam suas manifestações não-dogmáticas. Além do acordo no
que se refere aos princípios fundamentais, há outros elementos em comum. Sem
dúvida, isso não quer dizer, também, que não há diferença, mas elas são menores
tanto na questão da quantidade quanto na profundidade.
Contudo, é preciso esclarecer que existem diferenças gerais
entre o marxismo autogestionário e o anarquismo em geral, ou seja, incluindo
todas as suas correntes. Isso ocorre devido ao fato de que o marxismo (de Marx,
comunismo de conselhos, marxismo autogestionário) é expressão teórico-política
do movimento revolucionário do proletariado, o que significa que é uma teoria
cuja finalidade é a revolução e a autogestão. Nesse sentido, o marxismo
autogestionário tem uma fundamentação teórica, desde a teoria da história de Marx,
passando por diversas outras teorias produzidas por ele (com mais
desenvolvimento a teoria do modo de produção capitalista) e seus continuadores,
tal como a teoria dos conselhos operários de Anton Pannekoek e dos comunistas
conselhistas, até as mais recentes e desenvolvimento e atualização posterior. O
anarquismo é uma doutrina política e não uma teoria. É isso que permite que o
anarquismo, mesmo em suas melhores expressões, acabe caindo no ecletismo,
usando como base (metodológica e/ou teórica) ideologias burguesas (positivismo
clássico, positivismo pós-estruturalista), bem como também desemboque com
relativa facilidade, devido seu voluntarismo, no dogmatismo, praticismo,
reboquismo, revolucionarismo.
Essa não é uma diferença pequena, pois quando o anarquismo
acaba assumindo posições burguesas como base teórica ou metodológica, se
compromete, pois isso acaba intervindo nas análises da realidade e, por
conseguinte, na prática política. Uma análise equivocada da realidade gera
tomada de decisões e realização de ações também equivocadas. As concepções
metodológicas e “teóricas” (ideológicas) burguesas, produzidas pelas mais
variadas ciências (especialmente as “humanas”) possuem toda uma base
valorativa, sentimental, racional e de interesses que são intimamente ligados à
sociedade capitalista e seu processo de reprodução. Não é preciso aqui resgatar
o caráter do positivismo clássico de Comte e outros, que teve ressonâncias nas
obras de Bakunin e outros anarquistas da época (Kropotkin, Reclus, etc.), e seu
vínculo com a reprodução do capitalismo e essência conservadora.
Da mesma forma, o caráter contrarrevolucionário do
pós-estruturalismo (“pós-modernismo”) é por demais evidente para que seja
preciso esclarecer que, partindo de suas concepções metodológicas e ideológicas
(supostamente “teóricas”) se poderia tomar decisões e executar ações
revolucionárias. Obviamente que no caso do anarquismo revolucionário isso é um
tanto minimizado, pois é unido com princípios revolucionários, mas que acaba se
autolimitando por causa de tal base. Uma base metodológica e ideológica
burguesa unida com uma doutrina revolucionária forma um ecletismo e dependendo
de qual lado da balança pesa mais, pode se tornar, na pior das hipóteses,
prejudicial para a luta pela libertação humana e, na melhor, algo limitado e
contraditório, gerando obstáculos para o seu desenvolvimento geral. Claro está
que isso ainda terá múltiplas nuances dependendo do contexto, conjuntura,
indivíduos, etc. Porém, a superação do ecletismo é fundamental para que o
anarquismo revolucionário assuma a posição que é coerente com seus princípios
fundamentais.
Poderíamos supor duas possibilidades para tal superação. A
primeira possibilidade seria adotar o marxismo como sua base
teórico-metodológica, o materialismo histórico-dialético (o que inclui não só o
método dialético, a teoria da história, como também a teoria do capitalismo). A
recusa tradicional do anarquismo de usar o materialismo histórico-dialético é um
forte obstáculo para a superação dessa problemática. Tal recusa tem como fonte
os conflitos entre Marx e anarquistas no passado, por um lado, e pseudomarxismo
e anarquismo posteriormente. Além disso, tem as posições distintas de Proudhon
e Bakunin, entre outros, devido influência do positivismo. No entanto, Bakunin
aceitou o materialismo histórico, apesar de não o ter compreendido
adequadamente, confundindo ele com o materialismo burguês e com a concepção
positivista, tal como se observa em sua discussão sobre materialismo e a
questão dos “fatos”. Esse é um obstáculo a mais, principalmente depois da
emergência do leninismo, expressão ideológica da burocracia, que deformou o
materialismo histórico-dialético, de acordo com os interesses da burocracia
partidária e capitalismo estatal russo e acabou se generalizando e tornando-se
a versão dominante do “marxismo”. Este é outro obstáculo para uma real
compreensão do materialismo histórico-dialético, o que traz a necessidade de
retomar a produção de Marx, bem como de seus melhores continuadores (Labriola,
Korsch, o jovem Lukács em alguns aspectos, Pannekoek, etc.).
A segunda possibilidade seria o anarquismo gerar, de forma
original, sua própria base teórico-metodológica. Essa solução, no entanto,
seria meramente formal, ou seja, uma mudança linguística, já que o materialismo
histórico-dialético já apontou para os elementos essenciais nesse processo e
seria apenas a mesma concepção sob outra forma, uma forma linguística nova para
uma concepção já existente. A única vantagem dessa solução seria apaziguar as
mentes dos anarquistas dogmáticos e não ter que se referir ao marxismo, algo
tão pueril e infantil que só tem sentido, da perspectiva do marxismo
autogestionário, por partir da ideia de que a luta e seu conteúdo é mais
importante e pode fazer esse tipo de concessão por não afetar o processo
revolucionário.
Nesse sentido, o marxismo autogestionário e o anarquismo
revolucionário possuem proximidades e distanciamentos, pontos em comuns e
pontos divergentes, sendo que em alguns casos a diferença é radical, expressa
distintas posições de classe, a perspectiva proletária do marxismo
autogestionário em confronto com a perspectiva burguesa ou de outra classe do
anarquismo dogmático, do individualismo ou anarcossindicalismo; noutros casos,
a diferença é reduzida, mas não abolida, pois devido a diversas outras
diferenças menores, ação política imediata, conjunturas, idiossincrasias, compreensão
da realidade, concepção de ação, diferenças terminológicas, etc., isso pode se
intensificar ou minimizar.
De qualquer forma, em relação às tendências anarquistas que não são aliadas do proletariado revolucionário[1], a
posição do marxismo autogestionário é de crítica e combate, bem como de esperança de avanço no
sentido de uma perspectiva revolucionária, sendo que na prática depende das
posições e ações concretas, qual tendência (emancipação humana via revolução
proletária ou vanguardismo-reboquismo que reforça a contrarrevolução) fortalece
nesse processo. No caso das tendências do anarquismo que se aliam ao proletariado
revolucionário, a posição do marxismo autogestionário é de aliança e luta
conjunta, desde que elas mantenham sua coerência nesse sentido.
Em síntese, marxismo autogestionário e anarquismo
revolucionário são próximos, mas diferentes e o que interessa em sua
aproximação é a contribuição com a emancipação humana, e o que os aproxima ou
distancia é a proximidade ou distanciamento em relação a este objetivo, a
revolução proletária autogestionária.
[1] Proletariado
revolucionário significa a classe proletária autodeterminada, ou seja, que
rompe com as relações de produção capitalistas, com o capital. Isso difere do
proletariado como classe determinada pelo capital, ou seja, que busca apenas
sobreviver ou melhorar sua situação no interior do capitalismo (realizando
apenas lutas reivindicativas), que é ponto de partida para a luta e avanço no
sentido de se tornar autodeterminado, mas que por isso mesmo é preciso travar
uma luta para que avance nesse sentido e os militantes e organizações
revolucionárias devem partir da perspectiva do proletariado como classe
autodeterminada. Ficar ao nível do proletariado como classe determinada (se
dizendo “anarquista”, “conselhista”, “situacionista”, etc.) é cair no
reboquismo, uma posição reformista mesmo não tendo vínculos com as instituições
burguesas. O voluntarismo, praticismo, anti-intelectualismo, entre outros
elementos, são bastante próximos a estes posicionamentos, muito comum no
anarquismo. Isso é produto de seu caráter doutrinário e não-teórico.
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domingo, 12 de julho de 2015
Marx segundo Korsch - Resenha do livro “Karl Marx”, de Karl Korsch*
Marx segundo Korsch
Resenha do livro “Karl Marx”, de Karl Korsch*
Paul Mattick
Com marcante distinção a respeito de muitas outras
interpretações de Marx, este livro se concentra nos fundamentos essenciais da
teoria e prática marxistas. O autor reafirma “os princípios e conteúdos mais
importantes da ciência social de Marx à luz dos acontecimentos históricos
recentes e das novas necessidades teóricas que têm surgido pelo impacto destes
acontecimentos”. O livro não foi publicado para agradar ao curioso, nem
corresponde ao interesse de nenhum grupo particular. Apesar de sua densidade e
objetividade, é uma ferramenta teórica útil para as aspirações da classe
proletária; ao resenhá-lo, não podemos fazer nada melhor que indicar, embora
inadequadamente, sua riqueza e seu valor.
O livro se divide em três partes: Sociedade, Economia
Política e História. O marxismo é declarado “a genuína ciência social do nosso
tempo” e sua superioridade em relação à ciência pseudossocial da burguesia é
demonstrada ao longo do livro.
Captar o princípio da especificidade histórica em Marx é da
maior importância para a compreensão do fenômeno social. Marx usa os conceitos
econômicos, sociais e ideológicos “apenas quando necessário para seu tema
principal, ou seja, o caráter específico assumido por eles na moderna sociedade
burguesa”. As chamadas “ideias gerais” sempre tem que ter um elemento histórico
específico. Por exemplo, o falso conceito idealista da evolução tal como é
aplicado pelos teóricos sociais burgueses
está fechado
por ambos os lados, e em todas as formas passadas da sociedade apenas se
redescobre a si mesmo. O princípio marxista do desenvolvimento é, inversamente,
aberto por ambos os lados. Marx define a nova sociedade comunista que surge da
revolução proletária não apenas como uma forma mais desenvolvida do que a
sociedade burguesa, mas como um novo tipo que não pode ser explicado por meio
de nenhuma das categorias burguesas.
É necessário, especialmente hoje, reafirmar esta posição
marxista, deixando claro, ao considerar a literatura recente sobre socialismo,
que simplesmente imagina a sociedade socialista como uma forma modificada de
capitalismo e, usando diferentes nomes, transfere todas as categorias
capitalistas à “nova” sociedade.
O princípio da especificidade histórica, tal como utilizado
por Marx, não exclui um grau necessário de generalização. Contudo, leva a um
novo tipo de generalização. Com Marx,
o “geral” do conceito já não se coloca confrontado à realidade concreta
como em outro reino, senão com todo o geral, incluso em sua forma conceitual,
permanecendo necessariamente como um aspecto específico ou uma parte
mentalmente fragmentada do concreto histórico da existente sociedade burguesa.
A atual tagarelice popular sobre a “metafísica
do materialismo dialético”, embora não seja tratado por Korsch, é não obstante
contestado por ele quando assinala que
se Marx, de fato, partiu de uma inversão crítica e
revolucionária dos princípios inerentes ao método de Hegel, certamente
continuou desenvolvendo, de uma maneira estritamente empírica, os métodos
específicos de sua própria crítica e investigação materialistas.
O entusiasmo dos últimos dos
críticos do “senso comum” é o que tem menos justificação, enquanto que a teoria
marxista,
trata todas as ideias como estando conectadas com uma época histórica
definida e com uma forma de sociedade específica que pertence a tal época, se
reconhece a si mesma como nada mais do que um produto histórico, como qualquer
outra teoria que pertence a uma fase definida do desenvolvimento social e a uma
classe social definida.
A segunda parte do livro aponta de início que “a Economia
Política, que trata da fundamentação material do Estado burguês existente, é,
para o proletariado, o primeiro e mais destacado inimigo”. O autor descreve a
história do pensamento econômico burguês de modo bastante conciso e mostra
porque qualquer “desenvolvimento genuíno da Economia Política foi excluído pelo
desenvolvimento histórico real da sociedade burguesa”. A crítica de Marx à
Economia Política não era, como se assume frequentemente, um desenvolvimento
superior da ciência econômica burguesa, mas a teoria de uma revolução iminente.
As diferenças entre os conceitos econômicos clássicos e os marxistas são
demonstradas da maneira bastante esclarecedora e mostra que os avanços
marxistas
da teoria econômica clássica são importantes, não por seu puro avanço
formal sobre o conceito clássico, mas por sua transferência clara e decidida do
pensamento econômico do campo da troca de mercadorias e das concepções legais e
morais do bem e do mal que dela se originam, ao campo da produção material
tomado em sua plena significação.
Pensamos que os melhores capítulos do livro são aqueles
dedicados ao fetichismo das mercadorias e
a Lei do valor. O autor mostra novamente que: “as ideias e princípios mais
gerais da Economia Política são meros fetiches que mascaram as relações sociais
efetivas, prevalecentes entre os indivíduos e as classes dentro de uma época
histórica definida da formação socioeconômica”, e indica ademais que a
exposição teórica do caráter fetichista das mercadorias é “não somente o núcleo
da crítica da economia política marxista, mas ao mesmo tempo a quintessência de
sua teoria econômica do capital e a definição mais explícita e mais exata do
ponto de partida teórico e histórico de toda a ciência materialista da
sociedade”. Esses capítulos estão condensados com tal destreza, sem com isso
perder clareza, que fazem inútil qualquer intenção de reiteração. Os
pensamentos não podem expressar-se em uma linguagem mais precisa e efetiva e
unicamente podemos nos limitar a dizer que o autor vê a tarefa do proletariado
revolucionário como “a destruição final do fetichismo mercantil capitalista
mediante uma organização social direta do trabalho”. A importância da atual
organização social do trabalho, que é ocultada sob as relações de valor
manifestas nas mercadorias, é demonstrada fazendo referência às atuais
intenções ilusórias de “planificação” capitalista, que só pode perturbar ainda
mais a “ordem” que é peculiar ao capitalismo e foi produzido pelas necessidades
cegas da fetichista lei do valor.
Outro capítulo expõe as más interpretações comuns da
doutrina marxista do valor e do mais-valor, e é muito oportuna devido aos novos
ataques lançados pelo “liberalismo” em torno ao caráter “acientífico” da teoria
econômica marxista. Pois se argumenta, uma e outra vez, que a teoria do valor
de Marx deve estar equivocada dado que aborda o problema exclusivamente do lado
da oferta e é, por conseguinte, incapaz de abordar o problema dos preços reais.
Contudo, Korsch afirma que
Nunca foi a intenção de Marx derivar da ideia geral do valor, tal como
foi exposta no primeiro volume de O
Capital, por meio de determinações cada vez mais estreitas até uma
determinação direta do preço das mercadorias. A importância particular da lei
do valor dentro da teoria de Marx não tem nada a ver com uma fixação direta dos
preços das mercadorias por seu valor.
As diversas exposições dos
economistas burgueses, tentando provar discrepâncias entre a lei do valor e das
constelações efetivas dos preços, discrepâncias devidas, segundo creem, à “unilateralidade”
do conceito de valor de Marx, estão inteiramente fora do lugar. E é bastante
divertido notar que a aplicação de Marx da lei do valor à força de trabalho é
rechaçada com o argumento da flexibilidade dos salários, um argumento que só
demonstra que esses economistas burgueses desconhecem a posição de seu
oponente. De acordo com Marx: “não há nenhuma relação econômica ou
racionalmente determinável entre o valor e as novas mercadorias produzidas pelo
uso da capacidade viva do trabalho na fábrica e os preços pagos por este
trabalho a quem a vendem”.
A última parte do livro trata da concepção
materialista da história. Embora tenha uma origem filosófica, Korsch aponta que
a ciência materialista de Marx, “sendo uma investigação estritamente empírica
de formas históricas e definidas de sociedade, não necessita um suporte
filosófico”. Descrevendo o desenvolvimento científico de Marx, mostra que “já
em 1843, se tornara claro para Marx que a Economia Política era a chave de toda
a ciência social”. No lugar do eterno desenvolvimento da “Ideia”, Marx colocou
o desenvolvimento histórico real da sociedade sobre a base do desenvolvimento
do modo de produção material. Em um capítulo que trata da relação entre Natureza e Sociedade, Korsch mostra que
como com todas as demais inovações incorporadas na nova teoria
materialista, a extensão metódica por parte de Marx, da sociedade a expensas da
natureza, é demonstrada principalmente sobre o campo da ciência econômica.
Depois de esclarecer vários conceitos marxistas, tais como a
relação entre forças produtivas e relações de produção e base e superestrutura
da sociedade, Korsch explica o que Marx queria dizer ao afirmar que “o
verdadeiro limite histórico da produção capitalista é o próprio capital”, e que
somente a revolução proletária, ao alterar as relações de produção, pode
assegurar o desenvolvimento progressivo ulterior das forças sociais da
produção.
Mas embora estejamos de acordo em grande medida com esta
interpretação de Marx, não podemos nos abster de comentar que a sua grande
clareza e coerência revolucionária ao tratar do pensamento de Marx fica
atenuada no momento em que aborda os acontecimentos revolucionários mais
recentes e suas características. Por exemplo, o deslocamento da ênfase entre as
formulações mais iniciais e as mais tardias dos princípios materialistas por
parte de Marx, do fator subjetivo da luta de classes revolucionária a seu
desenvolvimento objetivo subjacente está, na interpretação de Korsch, causado
porque os desenvolvimentos efetivos impõem uma mudança de atitude. “De maneira
similar”, diz, “o marxista revolucionário Lênin confrontou-se com as tendências
revolucionárias ativistas dos comunistas de esquerda de 1920 que, em uma
situação objetivamente alterada, aderiram às palavras de ordem da situação
revolucionária direta provocada pela Grande Guerra”.
Esta defesa tardia do panfleto oportunista e bastante pueril
de Lênin, O Esquerdismo, Doença Infantil
do Comunismo, que foi escrito para assegurar o controle russo sobre o
movimento operário internacional para o interesse específico da Rússia e seu
Partido Bolchevique, não pode mudar o fato de que a “mudança de lado” de Lênin
não foi o resultado de uma consideração sóbria de uma situação alterada, pois
não significou nenhuma mudança real. Este panfleto de Lênin mantinha a posição
que sempre teve diante da oposição revolucionária de setores do proletariado da
Europa ocidental. Esta posição era a mesma que possuía também durante o tempo
que, segundo Korsch, era objetivamente revolucionário. Era a posição da
socialdemocracia dos tempos de pré-guerra, que Lênin nunca abandonou
mentalmente, mas só organizativamente. Está entrelaçada com a posição do
revolucionário burguês russo e em estrita oposição a todos os princípios
revolucionários específicos da classe trabalhadora antes, durante e depois da
Grande Guerra. Estava em estrita oposição, também, aos princípios marxistas,
esquecidos tanto pelos socialistas como pelos bolcheviques e que, reafirmados
aqui, fazem desta obra, goste ou não seu autor, uma arma contra o Lênin “marxista”.
* KORSCH, Karl. Karl Marx. Londres, London School Of Economics, 1938. Tradução de
Jaciara Reis Veiga.
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