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segunda-feira, 27 de julho de 2015
Autogestão e Ideologia - Nildo Viana
Autogestão e Ideologia
A autogestão é um projeto que emerge no
capitalismo e que ganha vários nomes, sendo que a palavra somente surge no
final da década de 1960. Toda palavra, no entanto, está inserida num conjunto
mais amplo de uma concepção que lhe dá o sentido. O sentido da palavra
autogestão foi deformado com o passar do tempo e nesse contexto é preciso
entender esse processo de deformação. Para entender tal processo é fundamental
entender a ideologia. A razão para isto é devido ao fato de que a autogestão,
no sentido original da palavra e como significado, é oriunda de uma teoria e
sua deformação significa sua absorção por uma ideologia. Sendo assim, vamos
iniciar o presente texto com uma discussão a respeito dos procedimentos
ideológicos de deformação da autogestão e posteriormente colocar alguma de suas
principais formas de manifestação no caso do termo autogestão, destacando sua
principal forma contemporânea, a ideologia da economia solidária.
A Apropriação Ideológica da Autogestão
A ideologia é um sistema de pensamento
ilusório, falsa consciência sistematizada, e sua produção está ligada aos
interesses da classe dominante e/ou suas classes auxiliares. Trata-se de um
saber complexo, sistematizado, que gera uma inversão da realidade, deforma a
realidade apresentando-a e ao mesmo tempo ocultando-a. Não se deve confundir
ideologia com ilusão em geral. As ilusões assumem várias formas, inclusive a
forma do saber não complexo, do saber comum. Esse saber comum já foi chamado de
“senso comum”, “cultura popular”, “saber popular”, “conhecimento cotidiano”,
“representações sociais”, “representações cotidianas”, entre inúmeros outros
nomes. As representações cotidianas são as formas do saber não complexo e não
especializado que todos os seres humanos desenvolvem, inclusive os cientistas,
filósofos e teólogos sobre os temas e questões que não abordam em suas
produções profissionais/especializadas. A ideologia, ao contrário, é um saber
complexo e por isso se distingue das representações cotidianas, inclusive as
ilusórias. A ideologia produz ilusões, mas sob forma complexa, o que a torna
mais convincente. A ideologia se manifesta como filosofia, teologia, ciência,
etc.[1]
A humanidade sempre conviveu com as
ilusões, mas antes das sociedades divididas em classes sociais antagônicas, a
razão de sua existência era a falta de informação e compreensão da natureza e
das relações sociais, devido ao grau de desenvolvimento das forças produtivas.
Quando a humanidade supera em grande parte esse obstáculo, o que se amplia com
o passar do tempo, ela cria uma nova necessidade de produção de ilusão, agora
com raízes sociais: a divisão social do trabalho e as classes sociais com suas
necessidades e interesses, especialmente as classes dominantes que precisam
negar, de forma intencional ou não, um entendimento profundo das relações
sociais, pois não pode declarar abertamente a exploração e a dominação, precisa
justificá-las e isso é a fonte da produção da ideologia por parte dos
ideólogos. Os próprios ideólogos são produtos da divisão social do trabalho.
São aqueles que se especializam no trabalho intelectual e produzem formas de
saber complexo que invertem a realidade.
A ideologia está intimamente ligada à
luta de classes, não apenas por reproduzir os interesses da classe dominante
e/ou de suas classes auxiliares, mas também no sentido de que uma das
atividades dos ideólogos é combater as formas de consciência das classes
exploradas. Eles fazem isso através da crítica, da desqualificação (como as
classes exploradas, devido à divisão social do trabalho, não produzem saber
complexo, a não ser em casos individuais, então a desqualificação das
representações cotidianas, chamadas pejorativamente de “senso comum” é uma
produção da ciência, da forma dominante de ideologia dominante), entre outras
formas. No caso do capitalismo, uma das formas assumidas pela luta cultural da
burguesia contra o proletariado é a de assimilar e deformar as ideias
revolucionárias. Esse foi o caso do que foi feito com o marxismo, entre
diversos outros exemplos. Também não faltam estudos que mostram como o saber
operário em uma fábrica é apropriado e deformado pelos representantes da classe
capitalista.
Esse é o caso da autogestão. A palavra
autogestão tem dupla origem[2],
mas seu conteúdo antecede sua existência formal. A palavra emerge no bojo do
movimento do maio de 1968 na França, quando a rebelião estudantil e luta
operária atingiram grande radicalidade e quase se tornou uma tentativa de
revolução proletária[3].
Autogestão, nesse contexto, significava uma nova sociedade em substituição à
sociedade capitalista. Esse significado foi deformado com a derrota da luta
estudantil e proletária.
A derrota do maio de 1968 fez com que a
classe capitalista e seus aparatos (principalmente seus ideólogos) realizassem
uma contrarrevolução cultural preventiva, ou seja, criaram ideologias diversas
para se apropriar e deformar as ideias revolucionárias que emergiram ou
ganharam evidência nesse momento de ascensão das lutas sociais. Essa é a época
de surgimento do chamado “pós-modernismo”, um nome já problemático e que revela
uma consciência falsa, e por isso outros denominaram “pós-estruturalismo”[4].
Isso se aplicou a diversos termos, incluindo ao termo de autogestão. A palavra,
que era um outro nome para o que Marx denominou “comunismo”, “livre associação
dos produtores”, “autogoverno dos produtores”, etc. ou o que alguns anarquistas
denominaram “anarquia”, uma nova sociedade sem estado, classes, capital, etc.
fundada no processo no qual a população dirige ela mesma o seu destino e o
conjunto das relações sociais, foi reduzida a uma parte do todo e retirada do
contexto, que era a sociedade do futuro.
Após essa contrarrevolução cultural
preventiva, a palavra autogestão passa a ser usada pelos reformistas e outros,
retirando seu caráter revolucionário. Esse processo ocorreu com outros termos,
mas ela é o nosso foco aqui. O procedimento ideológico para deformar o termo
autogestão é o mesmo que para os demais termos: destotalização e
despolitização. A destotalização se caracteriza por negar a importância
metodológica da categoria de totalidade, o que significa retirar determinado
fenômeno social de seu contexto histórico, social, sua inserção na sociedade
como um todo. Derivado disso, ocorre o processo de despolitização, pois assim
vira algo meramente técnico, isolado, desligado do Estado, das lutas de
classes, do capital, etc.
As diversas concepções ideológicas de
autogestão que irão surgir terão essa característica fundamental: retirar a
autogestão da totalidade e substituir a concepção totalizante por uma
fragmentadora. Assim, há a transformação da autogestão em mero elemento de
administração, em algo semelhante a uma cooperativa, etc. A autogestão deixa de
ser uma nova sociedade autogovernada pelo conjunto da população e passa a ser
gestão de empresas isoladas, cooperativas isoladas, democracia direta, etc.
Esse é o procedimento ideológico da deformação da autogestão, pois através
deste fantástico e pouco realista desligamento da autogestão da totalidade das
relações sociais e abolindo a percepção de que sob forma isolada é impossível
sua existência, a não ser temporariamente ou em escala muito limitada e estando
distante do Estado e do capital.
As Principais Concepções Ideológicas de
Autogestão
Desde o início dos anos 1970, com a
contrarrevolução cultural preventiva depois da derrota do Maio de 1968 (VIANA,
2009), começaram a existir diversas deformações do termo autogestão e seu
significado. A burocracia partidária, expressa nos partidos socialdemocratas e
bolchevistas, buscaram desqualificar a autogestão, colocando que ela era
“impossível”, “esquerdista”, “utópica”, etc., ou colocando como parte do seu
programa, mas não enquanto projeto de uma nova sociedade, apenas como forma de
“gestão democrática”. Esse é o caso da CFDT (Confederação Francesa Democrática
do Trabalho, central sindical), PSU (Partido Socialista Unificado), PCF
(Partido Comunista Francês, que até se colocou contra o movimento estudantil em
1968), PS (Partido Socialista), CGT (Central Geral dos Trabalhadores, central
sindical atrelada ao PCF), etc.
A CFDT foi a primeira e graças ao seu
ideólogo, Pierre Rosavanllon, autor de A
Era da Autogestão, obra publicada em 1976, iniciou o processo de deformação
assimiladora da palavra, sob forma sistemática, ao contrário de outros (tal
como alguns bolchevistas, que preferiram negar e criticar a ideia de
autogestão). A concepção de autogestão em Rosavanllon é reformista, algo
gradual, e que seria uma espécie de forma de gestão das fábricas e empresas,
que, com o processo gradual de transformação, se tornaria um dos pilares da
sociedade futura (ROSAVANLLON, 1979). Ou seja, autogestão aqui não é
totalidade, é parte, a parte política garantida pelo “direito social”, ou seja,
uma versão jurisdicista da autogestão. A segunda forma de deformação ideológica
da autogestão pode ser vista em Jean-Luc Dallemagne na qual ocorre a recusa da
autogestão e uma interpretação ideológica que mescla a concepção de seus
defensores com posições reformistas e esquerdistas, visando defender a
necessidade de burocracia no “socialismo”, bem como interpretando-a como mera
questão de “gestão” (DALLEMAGNE, 1977).
Essas primeiras formas de deformação da
ideia de autogestão seriam reforçadas e ampliadas especialmente nos anos 1980,
quando a própria classe capitalista passa a querer se apropriar do termo
autogestão e transformá-lo em algo compatível com o capitalismo, tornando-se
mera “gestão de empresas” (LOJKINE, 1990). Da mesma forma, algumas tendências
supostamente de “esquerda” passam a usar o termo autogestão num sentido próximo
ao dos reformistas franceses, seja como cooperativa ou “economia solidária”,
seja como algo que ocorreria apenas no interior das fábricas. Por isso torna-se
necessário a crítica das ideologias que deformam o conceito de autogestão e
para isso é necessário mostrar a impossibilidade da autogestão no interior do
capitalismo.
Autogestão e Capitalismo
A palavra autogestão, especialmente a
partir de 1980, passou a ser usada para designar coisas como “democracia
direta”, “forma de gestão ou administração”, “cooperativa” ou “economia
solidária”, entre outras concepções ideológicas. Todas essas concepções são
ideológicas por utilizar o termo autogestão como se fosse apenas uma parte da
sociedade, algo restrito, e que, a partir desse processo de extração do
conteúdo totalizante do conceito, pode pensá-lo no interior de outra
totalidade, ou seja, dentro do capitalismo.
Pensar a autogestão como “democracia
direta” significa pensá-la a partir de uma concepção ideológica, mesmo para
quem se diz anarquista ou use qualquer outro nome. Isso ocorre por reproduzir a
concepção ideológica que separa a realidade em diversas partes separadas e
separáveis, promovendo um isolamento de coisas que estão unidas na vida real.
Sem dúvida, a divisão social do trabalho no capitalismo cria a política
institucional (a instância do Estado e dos aparatos burocráticos), bem como o
modo de produção capitalista cria um conjunto de divisões e se distingue de
outros aspectos da realidade, assim como se cria um setor especializado na
produção cultural. Contudo, mesmo no capitalismo, a “política”, a “economia”, a
“cultura”, etc., não estão separadas totalmente. Eles são partes do todo e sua
relativa separação é marcada pela relação, determinação, imbricação,
correspondência, etc. A doutrina dos fatores – uma ideologia que divide a
realidade em “fatores”, tais como o “fator político”, “fator econômico”, etc. –
como se eles fossem independentes e autônomos, revela apenas a percepção da
aparência da divisão social do trabalho no capitalismo[5].
Essa percepção da aparência, por se limitar a ela, é fetichista e ideológica. O
projeto autogestionário é totalizante não por reduzir a divisão social do
trabalho e sim por aboli-la e, portanto, numa sociedade autogerida, nem no
nível da aparência tais divisões seriam percebidas, já que seriam inexistentes.
A ideia de “democracia direta” é em si
problemática e considerada sinônimo de autogestão significa reduzir o projeto
autogestionário a algo que seria separado, a instância política, tal como no
capitalismo. Assim, isso significa pensar a sociedade do futuro, como suas
relações sociais radicalmente diferentes, a partir dos termos e construtos do
presente, que expressam as relações do capitalismo. Ao projetar termos e
construtos do capitalismo para a sociedade autogerida, essa concepção
simplesmente deforma a ideia de autogestão, sendo a projeção do capitalismo e
sua divisão social do trabalho para o futuro, tendo caráter
contrarrevolucionário. Além disso, ainda promove a confusão de pensar na
possibilidade da autogestão no interior do capitalismo, pois sendo apenas uma
parte da realidade, a da política, se poderia pensar em “democracia direta” no
seu interior.
A ideia de autogestão como “gestão de
empresas”, seja de “fábricas recuperadas”, seja como forma de administração de
empresas capitalistas, é outra deformação ideológica do conceito original. As
empresas capitalistas funcionam para realizar o processo de exploração e uma
“autogestão” no seu interior é impossível. Nesse caso, o que pode existir é
“participação”, “controle operário” ou “cogestão”. A participação é o que
ocorre nas empresas capitalistas que usam formas de administração
participativas, nas quais os trabalhadores podem influenciar, discutir, e até
mesmo decidir alguns aspectos do processo produtivo, mas jamais o processo em
sua totalidade. A classe capitalista jamais permitiria isso, embora, sem
dúvida, possa usar um nome bonito como “autogestão” e permitir a participação
dos trabalhadores em parte do processo para aumentar a produtividade e a
docilidade dos mesmos. Essa participação pode ser mais ampla e permitir o que
foi denominada “controle operário”, processo no qual a participação geral é
mais intensa e o processo de trabalho fica sob o controle dos trabalhadores.
Aqui é apenas uma questão de grau, quantitativo, e o processo de trabalho, uma
parte do processo de produção em geral, fica sob a responsabilidade do controle
dos trabalhadores. Ou seja, trata-se de controle de apenas uma parte da
produção e não de sua totalidade.
As chamadas “fábricas recuperadas” são
empresas capitalistas falidas ou abandonadas que os trabalhadores passam a
gerir. Aqui nós temos o caso da cogestão, pois o processo de trabalho e o
conjunto da produção em determinada fábrica ou empresa passa a ser gerida pelos
trabalhadores. No entanto, isto não é autogestão, por mais que alguns insistam
em usar tal termo. É cogestão, pois autogestão pressupõe a gestão de todo o
processo, nos meios e fins, na forma e no conteúdo. A fábrica isolada está
submetida ao mercado, à necessidade de matérias-primas, tecnologia, máquinas em
geral, bem como o que produz é para o mercado e não para o autoconsumo. Nesse
sentido, a gestão é apenas do processo de produção local, ou seja, na unidade
de produção, sem haver autogestão das demais unidades de produção
(fornecedores, etc.), sem controle do que se produz e para quem se produz.
Trata-se de cogestão porque se define apenas o como se produz.
A última forma de ideologia
assimiladora da autogestão, que por sua vez pode assumir inúmeras outras
formas, é a do cooperativismo. As cooperativas são formas organizacionais que
trabalhadores utilizam para coletivamente produzir ou consumir. Elas parecem se
aproximar mais da autogestão, pois nelas a figura do capitalista inexiste. Mas,
tal como no caso das fábricas recuperadas, as cooperativas estão envolvidas na
divisão capitalista do trabalho e, portanto, decidem apenas o como produzir e
não os demais aspectos, é uma gestão de uma unidade de produção cercada pelo
modo de produção capitalista.
Todas essas concepções ideológicas de
autogestão se espalham pela sociedade e visam, na maioria dos casos,
simplesmente apagar da memória social a luta heroica do final dos anos 1960 e
as lutas revolucionárias do início do século 20, entre diversas outras, bem
como as teorias e concepções revolucionárias produzidas por Marx e diversos
outros. A autogestão é uma totalidade, é uma nova sociedade, como “anarquia”,
“comunismo”, sendo que o último nome também foi deformado e o primeiro está
ligado a uma corrente política com múltiplas subdivisões e, portanto,
definições.
A autogestão não somente é uma
totalidade, como não pode ser desligada da mesma e existir em outra. Por isso é
impossível autogestão no interior do capitalismo, a não ser em experiências
temporárias e esporádicas, existindo através do conflito permanente.
Dificilmente ela se prolonga por muito tempo. Nas melhores tentativas é uma
“autogestão imperfeita”, ou seja, é mais um objetivo do que uma realidade. E
existem diversos motivos para ser assim. Nas épocas de revolução social, a
autogestão se manifesta de forma mais desenvolvida e completa e caminha para
sua generalização, o que pode ser impedido pela contrarrevolução, o que
geralmente ocorreu na história das lutas revolucionárias. Em períodos
não-revolucionários, é impossível a autogestão em empresas. Para entender isso
é necessário entender o capitalismo, outra forma de sociedade, outra
totalidade.
No capitalismo, o capital predomina e o
mercado, o lugar das relações entre os capitais privados, acaba cercando tudo e
realizando o processo de mercantilização das relações sociais, bem como da
transformação de todas as formas de produção em capitalistas, semicapitalistas
ou subordinadas ao capitalismo[6].
O cálculo mercantil se torna predominante não apenas na produção capitalista,
mas em todas as formas de produção e distribuição da sociedade capitalista. As
empresas capitalistas são aquelas voltadas para a produção de mais-valor ou
para a sua reprodução/repartição, incluindo o capital industrial, comercial,
educacional, comunicacional, etc. Qualquer pequena empresa acaba tendo que se
submeter ao domínio do capital e optar por ser capitalista, semicapitalista ou
subordinado ao capitalismo. As cooperativas são semicapitalistas e o modo de
produção camponês subordinado ao capitalismo. Para entender esse processo
devemos reconstituir o processo de passagem do não-capitalismo para o
capitalismo.
A transição do feudalismo para o
capitalismo significou não somente a queda paulatina do modo de produção
feudal, mas o surgimento do modo de produção capitalista e diversos modos de
produção subordinados. O modo de produção camponês, por exemplo, emerge nesse
contexto histórico marcado pela subordinação ao capitalismo. No modo de
produção camponês há a produção de valores de uso e valores de troca, ou seja,
se produz para o autoconsumo e para o mercado, sendo que é neste último que se
concretiza a subordinação, bem como através da ação estatal.
Esse processo abre espaço para a
criação de modos de produção semicapitalistas, fundados em pequenas
propriedades sem uso de força de trabalho assalariada. Essas formas de produção
se assemelham ao modo de produção camponês e demais modos de produção
subordinados, mas com o diferencial de que produzem apenas valores de troca, ou
seja, produzem para o mercado e não produzem os valores de uso, para o
autoconsumo (o que não impede, em certos casos, de consumir coisas produzidas,
mas elas são processos nos quais o consumo é de mercadorias, ou seja, do que
foi produzido para venda e subtraído, entrando na contabilidade geral do
processo de produção e em quantidades limitadas para não comprometer o lucro e
sobrevivência da mesma).
Este é o caso do modo de produção
cooperativista. As cooperativas de produção[7] são
um modo de produção semicapitalista, pois não só estão totalmente subordinadas
à divisão capitalista do trabalho, como também realizam o processo de produção
exclusivo de mercadorias. A repartição do lucro é realizada sob duas formas, a
especificamente capitalista, salários e a forma cooperativa, rendimentos pela
propriedade coletiva. Ela é semelhante à cogestão das fábricas, pois nessas os
trabalhadores se tornam proprietários e recebem além do salário um outro
rendimento. Contudo, existem casos em que alguns ganham apenas rendimentos,
outros apenas salários, e casos em que recebem ambos. Na cooperativa, os
trabalhadores determinam o como produzir, mas não os demais aspectos. Claro que
em diversas experiências existe uma divisão entre proprietários e assalariados
e isso significa que a cooperativa se transformou numa empresa capitalista.
Esse processo de passagem de modo de
produção semicapitalista, cooperativista, para capitalista, é resultado do
sucesso das cooperativas no interior do modo de produção capitalista. Quanto
maior é o desenvolvimento das cooperativas, mais elas se integram no
capitalismo, e passam a criar obstáculos para entrada de novos sócios, buscam o
aumento do lucro e gerar a separação entre trabalhadores assalariados e
dirigentes/proprietários. Assim, há uma metamorfose nas cooperativas, tanto no
processo histórico que amplia sua integração no capitalismo, quanto pelas
formas capitalistas de apropriação delas, seja colocando-as como apêndices
lucrativos ou usando-as como fachadas para exploração capitalista disfarçada.
As cooperativas não possuem condições de assumir um papel revolucionário, pois
nascem e se desenvolvem na sociedade capitalista, subordinadas ao mercado, ou
seja, aos capitais individuais. Ou elas fracassam e falem, ou prosperam e se
tornam capitalistas.
Mas não é apenas a dinâmica capitalista
do mercado dominado pelos capitais individuais que corroem as cooperativas. O
Estado cumpre um papel fundamental nesse processo, sob as mais variadas formas:
legislação, impostos, taxas, etc. As cooperativas precisam ser legalizadas e
atender um conjunto de requisitos impostos pelo Estado, bem como dispêndios que
esse exige, tornando sua vida ainda mais difícil de autossustentação.
Outros elementos da sociedade capitalista
interferem e contribuem para o fracasso ou apropriação capitalista delas, tal
como a cultura, a mentalidade e os valores dominantes. No início do século 19
foi possível pensar um cooperativismo revolucionário, que logo foi superado
pelo reformista e pelo pragmático, até chegar à ideologia da economia solidária[8].
E os ideólogos e ideologias são outros obstáculos para as cooperativas, que se
tornaram apêndices do capitalismo. Por isso é importante analisar uma das mais
fortes ideologias que deturpam a ideia de autogestão hoje e que é uma forma
contemporânea de se pensar o cooperativismo, a chamada “economia solidária”.
A Ideologia da Economia Solidária
A chamada “economia solidária” é uma
nova versão ideológica de deformação do conceito de autogestão. O que se chama
“economia solidária” é, no fundo, uma forma de cooperativa degenerada. Na
verdade, a dita “economia solidária” não apresenta nada de muito novo em
relação às cooperativas pragmáticas, a não ser que em muitos casos fazem um
discurso pseudorrevolucionário, aliado a um atrelamento maior ao Estado
capitalista, e vive vegetando na sociedade capitalista ou realizando a passagem
para a forma capitalista de produção.
Quais são as reais diferenças entre a
economia solidária e as cooperativas pragmáticas? No fundo, as diferenças
concretas, reais, da economia solidária em relação às cooperativas pragmáticas
são: a) o discurso pseudorrevolucionário que apela para “solidariedade”[9]
e que se coloca como um modo de produção intersticial que caminha para o socialismo;
b) a sua constituição no contexto cultural e social do capitalismo
contemporâneo, marcado pelo regime de acumulação integral, com seu Estado
neoliberal e suas políticas de redução de gastos estatais e responsabilização
da sociedade civil, aliado ao aumento do desemprego e nesse contexto as
cooperativas chamadas solidárias servem como estratégia de sobrevivência e
atraem desempregados e subempregados; c) o seu atrelamento ao Estado, através
do SENAES – Secretaria Nacional de Economia Solidária, FBES – Fórum Brasileiro
de Economia Solidária, entre outras instituições estatais, incluindo as
universidades[10].
O financiamento estatal e do capital
bancário é apenas a forma do capital assimilar tais experiências. Enquanto o
cooperativismo revolucionário do século 19 era produção dos próprios
trabalhadores, o cooperativismo estatista, chamado “economia solidária”, pode
emergir a partir de iniciativas estatais ou dos próprios trabalhadores, mas que
são assimiladas e coordenadas pelos governos ou suas instituições. O primeiro
processo ocorre por incentivo e iniciativa do governo e o segundo quando a
iniciativa é de setores da população que o Estado passa a coordenar em sua rede
de instituições, supostamente de apoio, mas, no fundo, de atrelamento.
O interesse estatal na economia
solidária é fundamentalmente diminuir os conflitos sociais e desemprego, graças
aos seus efeitos problemáticos para a governabilidade, bem como cooptar
diversos setores da sociedade, principalmente os mais beneficiados com a
cooperativas estatistas[11].
O discurso ideológico da economia
solidária se manifesta sob várias formas e não é nosso objetivo analisá-lo aqui
em sua totalidade. No fundo, as iniciativas de economia solidária são ou formas
de manifestação do modo de produção cooperativista, logo, semicapitalista, ou
formas capitalistas disfarçadas. Logo, não tem nada a ver com autogestão.
Obviamente que um dos aspectos de sua concepção ideológica reside justamente em
usar o termo autogestão. Claro está que o uso da palavra autogestão na economia
solidária é ideológico e também limitado, ou seja, não tem o caráter
totalizante de autogestão do processo de produção e do conjunto das relações
sociais. Nem sequer se coloca como autogestão das cooperativas. A autogestão
nas empresas de economia solidária refere-se a apenas um dos seus aspectos, o
administrativo[12].
Nesse caso, a relação entre economia solidária e autogestão é apenas
imaginária, uma ficção que serve aos interesses do capital e do Estado e dos
cooptados por ela.
As empresas cooperativas estatistas,
chamadas de “economia solidária”, estão submetidas ao capital e ao Estado, como
todas as cooperativas, só que, no caso do aparato estatal, de forma mais
intensa. Em suas formas mais desenvolvidas e consolidadas, são empresas
capitalistas disfarçadas e em suas formas mais precárias, são formas de
disfarçar o trabalho precarizado e estratégia de diminuição do desemprego.
Nesse sentido, economia solidária nada tem a ver com o projeto autogestionário
e o tratamento que os seus ideólogos dão a essa palavra é apenas mais uma
deformação ideológica do seu significado.
A ideologia que afirma tratar-se de um
modo de produção intersticial, ou seja, um espaço de produção não-capitalista
dentro do capitalismo, que poderia se generalizar, superando o capitalismo, tal
como sugerido por Paul Singer (), é absolutamente falsa. Ela é falsa por vários
motivos. Um deles remete ao fato de que o modo de produção cooperativista é
semicapitalista e vegeta no capitalismo. Ele não constitui alternativa ao
capitalismo e nem tem capacidade de se generalizar, pois sua prosperidade,
enquanto empresa cooperativa particular, significa sua passagem para se tornar
uma empresa capitalista e seu fracasso significa a falência. Da mesma forma, a
ampliação do número de cooperativas só seria possível se fossem as prósperas,
que já não são mais cooperativas propriamente ditas e sim empresas
capitalistas. A ampliação de cooperativas que fracassam e são precárias é algo tão
fantástico e fantasioso que só no mundo ilusório da ideologia isso poderia
ocorrer. Um modo de produção semicapitalista ao se desenvolver se torna
capitalista e ao não se desenvolver, entra em colapso e deixa de existir.
O modo de produção cooperativista, por
ser um modo de produção semicapitalista, não tem como ser uma alternativa ao
capitalismo. Ele nasce dentro do capitalismo e segue a dinâmica do mercado e a
regularização do Estado, reproduzindo internamente a dinâmica de um modo de
produção semicapitalista. A sua dinâmica é a mesma das pequenas propriedades[13]
no interior do capitalismo. Assim, a sua comparação, novamente, como modo de
produção camponês e o modo de produção das pequenas propriedades no capitalismo
ajudam a entender sua dinâmica.
O modo de produção capitalista tem sua
dinâmica centrada na acumulação de capital, no qual o investimento em dinheiro
permite a produção de mercadorias e exploração do trabalho do proletário, que
gera mais dinheiro, sendo este reinvestido, aumentando a produção/exploração e
o lucro e, por conseguinte, o dinheiro, e assim sucessivamente. O seu movimento
pode ser esquematizado da seguinte forma: D-M-D’-M-D’’-M-D’’’[14]
e assim sucessivamente, representando a reprodução ampliada do capital, o que
gera a concentração e centralização do mesmo.
O modo de produção camponês tem outra
dinâmica. Ele produz parte do que é consumido e devido sua subordinação ao
capitalismo, não consegue acumular capital. A sua dinâmica pode ser
esquematizada assim: M-D-M, ou seja, produz mercadoria para a venda no mercado
e com isso adquire o dinheiro para comprar mercadorias que não produz, o que é
possível porque além de produzir mercadorias produz produtos para autoconsumo,
valores de uso, e só compra o que não consegue produzir.
O modo de produção das pequenas
empresas, ou “pequeno-burguês”, possui outra dinâmica. Embora possa consumir
alguns itens que produz, é algo muito restrito, pois sua inserção no mercado e
o tipo de produção é voltada para atender ao consumo alheio. Ele produz mercadorias
exclusivamente ao contrário do modo de produção camponês. Isso não só lhe torna
mais dependente do mercado como também gera outra dinâmica. Essa é a dinâmica
da produção que se autossustenta e obtém um lucro mínimo, o que faz com que sua
reprodução seja problemática. Tal como no caso do campesinato, sua propriedade
é nominal, é mais posse do que propriedade, pois os meios de produção que
constituem o capital fixo (terra, instalações, máquinas, etc.) são pagos em
longo prazo, ou são hipotecados, etc., e sua manutenção é sempre difícil. Eles
estão, como os camponeses, subordinados à força do grande capital comercial e
das outras formas do grande capital e da regularização do Estado burguês. A sua
dinâmica pode ser assim esquematizada: D-M-D’-M-D’-M-D’’-M-D’, ou seja, a sua
acumulação é lenta e pode regredir, falindo ou tornando-se presa fácil para as
empresas capitalistas, cuja concentração e centralização destroem as empresas
menores (mesmo capitalistas e com lucratividade elevada).
Essa é a mesma dinâmica do modo de
produção cooperativista e da sua versão ideológica denominada “economia
solidária”, que tem uma maior possibilidade de existir e talvez se manter
graças ao seu caráter estatista, pois o apoio do Estado (financeiro, técnico,
etc.) faz com que as falências demorem mais ou ajudam na prosperidade daqueles
que abandonam o caráter cooperativo para assumir a forma capitalista.
Isso significa que a produção
cooperativista, e a “economia solidária” mais especificamente, não são um modo
de produção “intersticial” que possa ser alternativa ao capitalismo. Trata-se
de um modo de produção semicapitalista, voltado para a produção de mercadorias
e subordinado ao mercado e ao Estado, sem a menor possibilidade de se opor ao
capitalismo ou de superá-lo.
Esse processo, no entanto, está ligado
ao problema mais geral de que o comunismo ou a autogestão social não pode
emergir dentro do capitalismo, já que é engolido pelo movimento do capital. Se
o capitalismo emerge no interior do feudalismo em crise, é devido ao fato de
que ele nasce da propriedade privada burguesa[15], a
sua superação não pode ocorrer no seu interior, graças à sua dinâmica que
destrói qualquer concorrente, pois a reprodução ampliada do capital, como diz o
nome, é insuperável por outras formas de produção. É por isso que a autogestão
não surge como modo de produção dentro do capitalismo, ou, como diriam outros,
“economicamente”.
A autogestão como processo de domínio
coletivo dos seres humanos associados sobre o seu destino e o processo de
produção e do conjunto das relações sociais, é totalizante, mas se inicia na
luta, na negação do capitalismo e afirmação de si, que é afirmação da
auto-organização e autoformação. Não é no mercado e com propriedades, pequenas
ou não, supostamente coletivas ou não, que a autogestão se coloca como
possibilidade. A sua possibilidade pressupõe a superação do capitalismo e esta
não é feita por concorrentes (sejam pequenos empresários ou cooperativas) e sim
por dentro, pelo próprio proletariado que é explorado e pode destruir as
relações de produção capitalistas e construir as relações de produção
comunistas e isso pode se iniciar nas fábricas, empresas, lojas, mas tem que se
generalizar para toda a sociedade, não apenas no campo da produção, mas também
em todas as formas sociais (abolindo o Estado, o mercado, o dinheiro, gerando
novas relações sociais de produção do saber, etc., todos sob o signo da
autogestão).
A autogestão, como processo de domínio
consciente dos indivíduos sobre suas vidas, emerge quando a luta expressa isso
e, portanto exige organização coletiva autogerida e consciência desenvolvida
desse processo, não só do presente (um conselho de fábrica que consegue
perceber e realizar a autogestão de sua luta), mas do futuro, colocando a
necessidade de realização do projeto autogestionário, que é a generalização da
autogestão, o que implica, por sua vez, a superação da totalidade do
capitalismo (capital, estado, etc.). Logo, nada mais ilusório do que o discurso
ideológico da “economia solidária”, inclusive com o agravante de pensar que o
Estado capitalista – com apoio de instituições burguesas e empresas
capitalistas – incentivaria, como é o caso, o anticapitalismo dentro do
capitalismo. No máximo, a economia solidária é um concorrente e pobre do
capital, que tão logo se amplia, se transforma nele. É um sócio menor que quer
ser como o maior. A autogestão é sua negação total e nasce das lutas
autogeridas e não de empresas semicapitalistas.
Referências
ARVON, Henry. La Autogestion. 2ª edição, México: Fondo de Cultura Económica,
1982.
DALLEMAGNE, Jean-Luc. Autogestão ou Ditadura do Proletariado.
Lisboa, Socicultur, 1977.
DURKHEIM,
Emile. Da Divisão do Trabalho Social.
São Paulo, Martins Fontes, 1995.
LABRIOLA, Antonio. La Concepcion Materialista de la História. Madrid, Era, 1979.
LOJKINE, Jean.
Novas Políticas de Integração Patronal ou Premissas Autogestionárias? In:
SOARES, Rosa Maria (org.). Gestão da
Empresa, Automação e Competitividade: Novos Padrões de Organização e de
Relações de Trabalho. Brasília: IPEA, 1990.
PLEKHANOV, G. A Concepção Materialista da História. 4ª edição, Rio de Janeiro,
Paz e Terra, 1974.
ROSANVALLON, Pierre, La autogestión. Madrid, Fundamentos, 1979.
SINGER, Paul. Introdução à Economia
Solidária. São Paulo: Fundação Perseu
Abramo, 2002.
VIANA, Nildo. A Consciência da
História – Ensaios sobre o materialismo histórico-dialético. 2ª edição, Rio
de Janeiro: Achiamé, 2007.
VIANA,
Nildo. Cérebro e ideologia. Jundiaí:
Paco Editorial, 2010.
VIANA,
Nildo. O Capitalismo na era da acumulação integral. São Paulo: Idéias e
Letras, 2009
* Nildo Viana é sociólogo e filósofo.
[1]
Para maiores detalhes sobre ideologia, veja Viana, 2011.
[2] A
origem do conteúdo remete ao movimento revolucionário do século 19 e antecede a
origem formal que foi no maio de 1968 em Paris.
[3]
Isso foi antecedido pelo uso do termo na antiga Iugoslávia, sendo adotado na
França e ganhando significado distinto e revolucionário (ARVON, 1982).
[4] O
termo pós-estruturalismo é utilizado por que essas ideologias surgem depois do
modismo estruturalista nas ciências humanas e filosofia nos meios acadêmicos,
superado pela própria luta de classes. O termo pós-modernismo é muito mais
ambicioso, quer romper com o modernismo (toda produção cultural do período
moderno, ou seja, capitalista) e é por isso que grande parte dos ideólogos
também defende a ideia de que a sociedade capitalista foi substituída por uma
sociedade pós-moderna.
[5]
A crítica da ideologia dos fatores é antiga, e seus pioneiros foram Plekhanov
(1974) e Labriola (1979). Veja também Viana, 2007.
[6]
Para um aprofundamento sobre isso, confira meu livro A Mercantilização das Relações Sociais – Modo de Produção Capitalista e
Formas Sociais Burguesas.
[7] As
cooperativas de crédito e de consumo, como expressam relações de distribuição
capitalistas, e se encontram na imbricação entre modo de produção e formas sociais
de regularização, são, então, capitalistas, já que seu papel é possibilitar a
reprodução do capitalismo.
[8] A
história do cooperativismo acompanha a história do desenvolvimento capitalista
e dos regimes de acumulação e por isso é possível observar que o cooperativismo
revolucionário é da época da acumulação extensiva, o cooperativismo reformista
da acumulação intensiva, o cooperativismo pragmático da acumulação conjugada e
o cooperativismo estatista da acumulação integral.
[9] A
solidariedade é um valor universal, autêntico. No entanto, os valores
autênticos são deformados se inseridos numa proposta de valores dominantes,
axiológicos. Por conseguinte, defender a solidariedade pode parecer
revolucionário numa sociedade competitiva como a capitalista, mas isso depende
do conjunto do discurso. Um exemplo ilustra essa questão: o sociólogo
conservador e moralista, Émile Durkheim, colocou a solidariedade como um dos
pilares do seu edifício ideológico e axiológico (DURKHEIM, 1995). Ele postulava
a existência de uma solidariedade na sociedade moderna (capitalista) e por isso
negava a existência da luta de classes e da necessidade de transformação social
radical. Da mesma forma, a questão da solidariedade, pode ser usada para
sustentar e reproduzir os valores dominantes e a sociedade capitalista.
[10] E
complementarmente instituições privadas e as chamadas ONGs e Terceiro Setor.
[11]
Não é sem motivo que tal iniciativa emerge no governo neoliberal de Lula,
visando cooptar setores da sociedade civil para garantir a manutenção do
Partido dos Trabalhadores no poder. O seu caráter estatista é pouco percebido
graças ao próprio discurso da economia solidária e sua estratégia ideológica de
assimilar outras experiências históricas, como as do cooperativismo
revolucionário.
[12]
Isso pode ser visto na obra de seu principal ideólogo, Paul Singer (2002), tal
como se vê no livrinho Introdução à
Economia Solidária (publicado pela Fundação Perseu Abramo, do Partido dos
Trabalhadores), no qual seria mais “democrática” e nas empresas maiores, mesmo estas
tendo hierarquias, partiriam de “baixo para cima”. Obviamente que isso é apenas
discurso, e falso, que não parte das relações sociais concretas, mas mesmo se
fosse assim, no caso das pequenas empresas “solidárias”, não seria autogestão e
sim, no máximo, cogestão. Nas grandes empresas “solidárias” nem cogestão
existe, pois os trabalhadores estão separados da direção e esta concretamente
toma as decisões e possuem as informações e outros meios de administração que
os trabalhadores não possuem.
[13]
As pequenas propriedades são geralmente aquelas empresas que possuem apenas o
trabalho familiar ou agregado de poucos assalariados que ocupam espaços em que
o capital ainda não tomou conta ou que o fez de forma incompleta, deixando
formas marginais de produção. Trata-se do que alguns chamam de
“pequeno-burguês”, mas que a diferença em relação ao modo de produção
capitalista não é apenas de quantidade, mas também de qualidade e que dá margem
para a confusão da classe dos pequenos proprietários com a dos capitalistas por
causa do nome “burguês”.
[14]
D = dinheiro; M = mercadoria; D’ = mais dinheiro que D; D’’ = mais dinheiro que
D’.
[15]
Ou pequeno-burguesa, como alguns diriam, sendo que o sucesso desta está ligado
ao processo histórico, no qual a existência de poucas grandes empresas permitia
que as pequenas prosperassem e se tornassem grandes, o que ocorreu e no momento
histórico posterior, essas ex-pequenas empresas que agora são grandes impedem o
desenvolvimento de novas pequenas empresas.
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quarta-feira, 15 de julho de 2015
A Luta Operária e os Limites do Autonomismo - Karl Jensen
A Luta Operária
e os Limites do Autonomismo
Karl Jensen
A
luta operária se desenvolve em três estágios diferentes e o movimento
revolucionário deve agir no sentido de que ela chegue ao seu terceiro estágio,
que é o da luta verdadeiramente revolucionária. Esta é a tese que
desenvolveremos aqui. Os três estágios da luta operária são: a) o das lutas espontâneas; b) o das lutas autônomas; c) o das lutas autogestionárias. Faremos uma
breve discussão sobre estes estágios da luta proletária e depois veremos sua
relação com o movimento revolucionário.
O Desenvolvimento da Luta Operária
As
lutas espontâneas ocorrem no interior do capitalismo na vida cotidiana dos
trabalhadores. Quando um operário realiza vagarosamente o seu trabalho (a
chamada “operação-tartaruga”), quando quebra, rouba utensílios e objetos da
fábrica, quando demora no banheiro, quando “mata” serviço, etc., realiza uma
ação contestatária, uma recusa das relações de trabalho, enfim, uma recusa do
capital. Trata-se de uma ação que aparentemente não tem nada de crítica,
contestatória, ou, como diria um leninista-vanguardista, é apenas demonstração
de sua falta de consciência socialista.
O
que falta nas lutas espontâneas é um discurso, é a consciência da ação. Em
outras palavras, falta a manifestação da consciência da ação em um discurso. O
discurso se realiza através de códigos verbais que revelam significados. Uma
ação, por sua vez, também tem seu código, ou seja, também carrega em si
significados. O problema é a forma que assume cada expressão de significados. A
forma discursiva é verbal, realiza a reconstituição consciente do que existe
através dos signos linguísticos. A forma prática é ativa, é direta, não utiliza
signos embora manifeste significados. Assim, é possível realizar uma
transcodificação da ação em discurso, através não dos signos mas dos
significados. Se um operário não vai ao trabalho uma vez a cada dois meses,
isto não é nenhuma manifestação discursiva, de signos. No entanto, a ação de
não ir ao trabalho (dentro de um contexto específico, é claro, ou seja, desde
que não seja por doença, etc.) possui um significado: este operário contesta o
seu trabalho, está insatisfeito com ele, não se realiza nele e não quer realizá-lo,
o faz apenas para ganhar dinheiro e sobreviver, é um meio que ele se submete
por coação. Desta forma, a transcodificação da ação em discurso demonstra a
recusa das relações de trabalho, a recusa do capital.
As
lutas operárias espontâneas possuem este significado: uma recusa prática do
capital. No entanto, por ser uma recusa prática, não-discursiva, ela é uma ação
contestatória sem consciência revolucionária. Por isso ela ocorre no cotidiano
da fábrica, no processo de trabalho, sem produzir uma ação coletiva e
consciente, ou seja, uma consciência revolucionária.
O
segundo estágio da luta operária é o das lutas autônomas. Aqui o discurso
nasce, ainda fragmentado, ainda incompleto, ainda incipiente, tal com as lutas
travadas. Aqui a ação torna-se coletiva: as reuniões, os panfletos, a greve, o
piquete, entre outras formas. Aqui se recusa o capital mas não só ele, como um
produto derivado dele: a burocracia. Aqui as lutas operárias já significam algo
mais, significam a recusa dos representantes, dos partidos reformistas e
leninistas. A consciência de classe, apesar de suas contradições, já sabe que
sua ação é uma recusa e a associação operária se forma. Devido a isto, as lutas
operárias autônomas significam uma prática coletiva e contestadora que assume
um nível de radicalidade elevado. Daí a reação burguesa e burocrática, bem como
o conflito e luta encarniçada, ou seja, a radicalização da luta de classes. A
vitória burguesa ou burocrática significa a volta à normalidade capitalista. A
vitória proletária significa a passagem para as lutas operárias
autogestionárias. Assim, as lutas autônomas não ocorrem cotidianamente, mas em
determinados momentos históricos, quando há um processo de radicalização do
movimento operário. Este processo marca o nascimento de uma ação revolucionária
sem consciência revolucionária. Somente quando passa para a próxima fase da
luta, a das lutas autogestionárias, é que se desenvolve a consciência
revolucionária.
O
último estágio é o das lutas operárias autogestionárias. Aqui se revela uma
luta que garante a recusa do capital e da burocracia e a afirmação da
autogestão. O proletariado não só recusa o domínio do capital e da burocracia,
mas também assume a direção revolucionária da fábrica e da sociedade. Aqui não
só se realiza uma ação revolucionária como também se manifesta uma consciência
revolucionária. Esta consciência significa não somente a compreensão do
processo de exploração capitalista, da burocracia enquanto forma de dominação,
mas também da necessidade de constituição de uma nova sociedade, autogerida. A
recusa do capital e da burocracia vem acompanhada pela associação coletiva que
passa a autogerir as relações de trabalho e o conjunto das relações sociais. O
combate ao capital e ao estado é acompanhado da consciência de que eles devem
ser destruídos e que em seu lugar somente a autogestão pode garantir novas
relações sociais, igualitárias. Nasce a consciência de um objetivo: a revolução
social, o que pressupõe uma visão da totalidade das relações sociais e da
articulação do movimento operário no sentido de generalizar o processo
autogestionário. É imprescindível a percepção disto, pois o comunismo, tal como
colocou Marx, não surge da mesma forma que o capitalismo, através do
desenvolvimento da propriedade, e sim do domínio consciente dos seres humanos
sobre sua vida social, ou seja, sem consciência revolucionária não é possível
uma sociedade autogerida.
Assim,
a luta operária passa por três estágios: espontâneo, autônomo e
autogestionário. Esta é a tendência do movimento operário. Historicamente, este
é o seu desenvolvimento natural. Porém, toda tendência, numa sociedade de
classes, é contrabalançada por contratendências, isto é, a luta operária segue
uma linha no sentido de passar da luta espontânea, para a autônoma até chegar à
autogestionária, mas a ação das outras classes sociais dificultam este
desenvolvimento e por isso há retrocessos históricos, e em muitos casos a luta
autogestionária ao não concretizar a revolução, marca um retorno às lutas
espontâneas e o mesmo ocorre com as lutas autônomas. Marx afirmou que a
consciência de classe do proletariado, sua consciência revolucionária, surge através
das lutas de classes. E isto foi confirmado pela experiência do movimento
operário. Mas tal experiência também deixou claro que não é só a burguesia que
serve de obstáculo ao desenvolvimento da consciência revolucionária, mas também
o movimento “dito” socialista – socialdemocracia e bolchevismo – também servem
para bloquear tal desenvolvimento.
Estes
estágios da luta operária se reproduzem em todas as classes e grupos oprimidos
da sociedade capitalista. As mulheres, os jovens, os estudantes, os negros, os
imigrantes, etc., também realizam lutas espontâneas, que podem se desenvolver e
se tornar lutas autônomas e autogestionárias. Uma mulher que se nega a prestar “serviço
sexual” ao marido ou um estudante que “mata” aula manifestam a recusa da
opressão feminina e estudantil. A transcodificação desta ação em discurso pode
ser feita da seguinte maneira: a ação da mulher significa o questionamento de
uma relação de coerção sexual legitimada por esta sociedade e que expressa a
opressão feminina e a ação do estudante significa a recusa de um processo de
escolarização coercitivo expresso na sala de aula. Estas lutas espontâneas e
cotidianas se transformam em lutas autônomas quando inicia-se a tomada de
consciência, se esboça a ação coletiva e se rompe com as organizações
burocráticas que tentam dirigir a luta, seja o das organizações estudantis ou
feministas, geralmente ligadas a partidos políticos. As lutas autogestionárias
ocorrem quando se passa a ter uma visão da totalidade, o que pressupõe
reconhecer a unidade das lutas femininas e estudantis com a luta operária e se
coloca um objetivo revolucionário ao movimento.
O Movimento Revolucionário e os Limites do “Autonomismo”
Pois
bem, até aqui colocamos os estágios da luta operária. Agora devemos relacionar
o desenvolvimento da luta operária com o movimento revolucionário. O problema
do espontaneísmo e do “autonomismo” se encontra justamente na incompreensão da
passagem das lutas espontâneas e/ou autônomas para as lutas autogestionárias.
Ao fazer o elogio das lutas espontâneas, o espontaneísmo reconhece a
importância e o significado destas lutas, mas não compreende que é preciso
desenvolvê-las, no sentido de constituir lutas autogestionárias. Ao se fazer a
apologia do espontaneísmo, os espontaneístas podem assumir duas posições: a
primeira é o imobilismo, pois as lutas espontâneas bastam a si mesmas, não
devemos interferir nelas. Claro que por detrás disso pode estar toda uma
concepção filosófica ou economicista, tal como uma filosofia do “impulso vital”
ou a tese da crise final e inevitável do capitalismo. Não interessa aqui os
fundamentos desta concepção e sim suas consequências políticas. O espontaneísmo
enquanto concepção e “ação” política apenas reproduz as lutas espontâneas do
proletariado, o que significa ficar nos limites da sociedade capitalista e da
resistência cotidiana sem perspectiva de desenvolver uma luta revolucionária.
Os limites de tal concepção são por demais evidentes para termos que aprofundar
em sua crítica.
Outro equívoco se encontra no “autonomismo” (não
me refiro aqui às diversas correntes autonomistas que surgiram historicamente,
tal como o autonomismo italiano e português, que variam muito a sua concepção,
alguns até aceitando a formação de um partido, tal como ocorreu infelizmente
com o Il Manifesto, e outros conseguem cair no equívoco que aqui
denominamos “autonomismo” – entre aspas, para distinguir do movimento
autonomista). O “autonomismo” faz o elogio das lutas autônomas do proletariado.
Trata-se, pois, do elogio de uma ação revolucionária sem consciência
revolucionária. Esta posição atua no sentido de ultrapassar as lutas
espontâneas e atingir a autonomia operária. Significa apoiar a luta operária
contra o capital e a burocracia sem buscar desenvolver a consciência
revolucionária, ou seja, transformam os
limites da luta operária em virtude e os reproduzem... Tal concepção/ação
política é reproduzida por alguns anarquistas, autonomistas, e outras correntes
políticas que atuam no movimento operário. Assim, contribuem com a formação da
classe operária como presa fácil do reformismo ou bolchevismo, pois uma ação
revolucionária sem consciência revolucionária pode se tornar uma ação contrarrevolucionária...
Ficar nos limites da ação revolucionária sem desenvolver a consciência
revolucionária é um problema que deve ser superado pelo movimento operário e
cabe ao movimento revolucionário contribuir com tal superação e não com sua
perpetuação. Esta superação significa desenvolvimento e não abandono.
Até concepções filosóficas foram desenvolvidas
para sustentar o “autonomismo”. Foucault é o ideólogo do “autonomismo” par excellence. Ao lado dele, aparece a
figura de Deleuze. Eles revelam que o poder é “totalizador” e que a ação
revolucionária não... O intelectual deve se aliar ao proletariado e este sabe
tudo, ou seja, a questão é apenas de aliança... Os prisioneiros, mulheres,
etc., também sabem tudo e cabe ao movimento revolucionário se aliar a eles... O
engajamento é possível, mas é do tipo “espírito de rebanho”, isto é, já que o
rebanho é revolucionário por si só (...) então só nos resta segui-lo... Se ele
caminha para o abismo... Aqui a recusa do vanguardismo, legítima e
revolucionária, se torna reformismo inconsequente. Confunde-se negação do
vanguardismo com reboquismo, ou seja, aqui o movimento socialista vai à reboque
das massas. Se as massas desenvolvem apenas lutas espontâneas, devemos ficar
neste nível também... Se se elevam ao nível das lutas autônomas, sigamos
elas... Se a classe operária quer fazer uma greve para pedir aumento salarial e
melhores condições de trabalho, então vamos apoiá-la! Mas não devemos dizer
para ela que isto não basta, que é preciso fazer greve de ocupação ativa e autogerir
a fábrica, acabar com a propriedade e com o estado que vai aparecer em sua
defesa. Se ela quer é salário maior, então vamos cobrar isto do capital... Se
os desalojados querem casa, então devemos apoiá-los! Mas não devemos dizer para
eles que isto não basta, que é necessário romper com a mercantilização do solo
e com as relações de propriedade e com o estado que as sustenta e virá
defendê-la. Se eles querem é moradia, então isto basta... Nada de consciência
revolucionária...
Estes são os limites do “autonomismo”. Se o
espontaneísmo não ultrapassa os limites das lutas espontâneas, o “autonomismo”
não ultrapassa os limites das lutas autônomas. São um exemplo de como grupos
políticos se constituem como meros reflexos das lutas operárias, sem conseguir
ultrapassá-las, sem ter visão do processo histórico e se limitam a percepção do
que enxergam de imediato. Transformam romanticamente as lutas operárias em
modelos de ação, sem perceber que a luta operária realmente revolucionária
ocorrem nos períodos revolucionários, e são as lutas autogestionárias.
Para Além do “Autonomismo”
Desta forma, resta-nos superar o “autonomismo” e
defender uma concepção revolucionária, que tem como base a luta operária
autogestionária. Isto é fundamental para recolocarmos a questão da relação
entre os grupos políticos revolucionários e o proletariado e demais
classes/grupos que são exploradas/oprimidos.
A superação do “autonomismo” tem três elementos
básicos: a) reconhecimento de que sem
consciência revolucionária não há movimento operário revolucionário, e, por
conseguinte, é preciso efetivar uma luta cultural no interior da sociedade
burguesa; b) que sem o ponto de vista
proletário e da totalidade não existe teoria revolucionária, e,
consequentemente, grupos revolucionários; c) sem uma articulação nacional e
internacional não é possível haver revolução proletária.
O problema da consciência revolucionária já foi
colocado quando tratamos da luta operária autogestionária. A questão é que o
movimento operário caminha para a consciência revolucionária espontaneamente,
mas a ação contrarrevolucionária da burguesia e da burocracia bloqueia tal
desenvolvimento. É por isso que somente nas lutas de classes, quando há o seu
processo de radicalização, que ocorre a passagem para a consciência
revolucionária. Mas isto pode ocorrer antes de tal radicalização e pode
facilitar tal processo. Por isso um dos papéis mais importantes dos grupos
revolucionários é a luta cultural. O grande reformista Gramsci revelou a força
da hegemonia burguesa e a necessidade de uma contra-hegemonia. A ação pode ser
reprimida pelo capital e pelo estado mas a consciência íntima de um trabalhador
não... Marx já dizia que quando a teoria se apodera das massas ela se converte
em força material e isto é uma colocação revolucionária e fundamental. Não
basta estar junto dos operários, dos estudantes, dos negros, dos imigrantes,
das mulheres, é preciso apresentar-lhes o que a teoria nos legou, senão não há
sentido para a luta revolucionária. Uma tarefa fundamental para os grupos
revolucionários é lutar contra a hegemonia burguesa.
Mas aqui não se trata de retomar a tese leninista
de quem “sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário”, pois não
estamos tratando apenas de teoria. A posição leninista é, como em tudo mais,
burocrática. Para ele, o problema está na teoria científica elaborada pela intelligentsia, o que acaba justificando
o partido de vanguarda. Para nós, trata-se da consciência revolucionária, que
pode se manifestar na forma de uma teoria ou em outras formas menos complexas.
Neste caso, o velho e bom Marx já havia dado a resposta: os revolucionários não
formam um partido à parte do proletariado, não possuem interesses próprios, não
pretendem “modelar” o movimento operário.
Seu papel é fazer prevalecer os interesses comuns do proletariado, acima
das divisões nacionais, e representar os interesses do movimento em seu
conjunto. Os revolucionários constituem a “fração mais resoluta” do movimento
revolucionário e tem sobre o proletariado a “vantagem” da compreensão dos meios
e fins do movimento geral do proletariado. O objetivo dos revolucionários, ainda
segundo Marx, é a superação da supremacia burguesa (abolição do capitalismo) e
instauração do comunismo (diríamos hoje, autogestão).
Aqui entramos no outro ponto. A teoria
revolucionária é uma forma de manifestação da consciência revolucionária do
proletariado. Os proletários, devido suas condições de vida concreta, possuem
dificuldades de ter acesso ao saber teórico, seja o das ciências burguesas,
seja o do próprio marxismo. Alguns conseguem, apesar desta situação
desfavorável, ter acesso e não só isso como também desenvolver teorias. Mas
para se produzir uma teoria revolucionária é preciso partir do ponto de vista
proletário, que significa aqui o ponto de vista da classe proletária em sua
fase de luta revolucionária e não de indivíduos desta classe. A partir da
teoria revolucionária se articula uma visão clara dos objetivos do movimento
operário e da totalidade. Se para os operários sua própria condição de classe
os predispõe a desenvolverem uma ação e consciência revolucionárias, o mesmo
não ocorre para os indivíduos não proletários. Estes, mais do que os
proletários, precisam da teoria revolucionária. Somente assim poderão ser úteis
ao movimento revolucionário. Só assim poderão efetivar uma luta cultural contra
a hegemonia burguesa num sentido verdadeiramente revolucionário.
Aqui entramos em outra questão. A questão da
totalidade das relações sociais e da sua compreensão nos remete a mais uma
crítica ao “autonomismo”, seja foucaultiano ou qualquer outro. A teoria deve
partir da totalidade e realizar uma síntese totalizadora, ao contrário do que
pensa os “autonomistas” com suas “teorias regionais”. Isto se reflete na
estratégia revolucionária, pois ao compreender, como bem coloca o próprio
Foucault, que o poder é totalizador, o contrapoder, se quiser ultrapassar o
estágio das lutas autônomas, ou seja, se quiser realizar a revolução
proletária, deve também ser “totalizador”. Porém, o que diferencia o poder
burguês e o contrapoder proletário não é o seu caráter totalizador e sim a
forma que ele assume: o poder burguês é centralizador, burocrático, repressivo.
O contrapoder proletário é descentralizado, antiburocrático, libertário. Se o
poder burguês possui uma hierarquia, um centro, uma camada dirigente, o
contrapoder proletário se fundamenta na organização não-hierárquica, sem “centro”,
sem “camada dirigente”, mas articulada, seja no que se refere aos grupos
revolucionários ou ao movimento operário ou, ainda, ao conjunto dos opositores
do sistema capitalista.
A recusa da organização revolucionária significa ficar
nos limites das lutas espontâneas e/ou autônomas, enquanto que o movimento
revolucionário, se quiser ser realmente revolucionário, deve ficar ao nível das
lutas autogestionárias, que pressupõe se aglutinar em uma organização
autogerida. Somente assim superaremos os limites do “autonomismo” e
contribuiremos realmente para a libertação proletária, a libertação humana.
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segunda-feira, 13 de julho de 2015
Marxismo Autogestionário e Anarquismo
Marxismo Autogestionário e Anarquismo
Nildo Viana
Qual a diferença entre marxismo autogestionário (outros usam
outros nomes, mas aqui cabe destacar que usamos marxismo autogestionário como
sendo a forma/nome contemporânea do marxismo autêntico, que sempre foi
“autogestionário” sem usar tal palavra e tão-somente para distingui-lo do
pseudomarxismo, o leninismo e seus derivados e para expressar sua manifestação
contemporânea) e anarquismo? Ao ser questionado diversas vezes sobre isso,
então torna-se necessário explicitar de forma mais estruturada o que distingue
um do outro.
Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que se trata do
marxismo autogestionário e não de qualquer suposto “marxismo”, pois o
pseudomarxismo leninista, trotskista, stalinista, maoísta, guevarista, entre
outros, são deformações do caráter autogestionário do marxismo e por isso são
muito mais distantes do anarquismo. O marxismo autogestionário tem proximidade
com alguns elementos do anarquismo, especialmente seus princípios fundamentais.
Estes princípios fundamentais seriam a tese da abolição imediata do aparato
estatal, recusa e crítica das autoridades e formas de dominação e hierarquias
sociais. O marxismo autogestionário também aponta para tais princípios, mas, no
entanto, não é “anarquista”, a não ser que se reduza o anarquismo a isso. Da
mesma forma, o marxismo autogestionário não se reduz a isso e tem outros
princípios fundamentais, alguns que se encontram em algumas correntes
específicas do anarquismo, outras não.
O marxismo autogestionário tem como princípios fundamentais
os seguintes: a história das sociedades classistas é a história da luta de
classes; o proletariado é a classe revolucionária de nossa época; a
autoemancipação proletária (revolução proletária realizada pela classe operária
e seus aliados) é a forma de realização da emancipação humana (humanismo
revolucionário, concreto); a autogestão é a essência da nova sociedade que
emerge após o capitalismo, não sendo “parte dela”, mas sua essência e se
generalizando pelo conjunto das relações sociais; a revolução proletária só
pode ser vitoriosa se abolir o Estado e o capital, sem a ideologia do “período
de transição”; as organizações revolucionárias devem ter uma estratégia
revolucionária e superar o reboquismo e o vanguardismo; a burocracia é uma
classe social contrarrevolucionária e por isso deve ser combatida, bem como
todas as organizações burocráticas (partidos, sindicatos, Estado, etc.); a luta
cultural é uma das ações fundamentais a ser efetivada pelos grupos revolucionários;
é necessário que a estratégia revolucionária unifique meios e fins e coloque
como fundamental o objetivo final (autogestão social) e este determina os
meios, bem como, derivado disso, é necessário evitar concessões
contrarrevolucionárias (participação em democracia burguesa, por exemplo).
Assim, o marxismo autogestionário tem proximidade com
determinadas tendências do anarquismo e afastamento de outras. O marxismo
autogestionário é oposto ao anarcoindividualismo e ao anarcossindicalismo. O
primeiro é devido ao seu caráter burguês (individualista) e o segundo ao seu
vínculo com os sindicatos, organizações burocráticas (com exceção do início do
capitalismo, seu período heroico antes da burocratização). Também é muito
distante do anarquismo dogmático, que simplifica e reduz o anarquismo a
determinadas ideias (ou pensamento de determinado pensador anarquista) que se
tornam dogmas e motivo para recusar, julgar, condenar, todos os que não se
encaixam nelas ou então tudo que não é “anarquismo” (na forma exata que o
dogmático definiu, ou seja, sua corrente e/ou interpretação).
Em relação ao que denominamos anarquismo revolucionário, no
qual o anarcocoletivismo e o anarcocomunismo se encaixam, as diferenças são bem
menores, desde que sejam suas manifestações não-dogmáticas. Além do acordo no
que se refere aos princípios fundamentais, há outros elementos em comum. Sem
dúvida, isso não quer dizer, também, que não há diferença, mas elas são menores
tanto na questão da quantidade quanto na profundidade.
Contudo, é preciso esclarecer que existem diferenças gerais
entre o marxismo autogestionário e o anarquismo em geral, ou seja, incluindo
todas as suas correntes. Isso ocorre devido ao fato de que o marxismo (de Marx,
comunismo de conselhos, marxismo autogestionário) é expressão teórico-política
do movimento revolucionário do proletariado, o que significa que é uma teoria
cuja finalidade é a revolução e a autogestão. Nesse sentido, o marxismo
autogestionário tem uma fundamentação teórica, desde a teoria da história de Marx,
passando por diversas outras teorias produzidas por ele (com mais
desenvolvimento a teoria do modo de produção capitalista) e seus continuadores,
tal como a teoria dos conselhos operários de Anton Pannekoek e dos comunistas
conselhistas, até as mais recentes e desenvolvimento e atualização posterior. O
anarquismo é uma doutrina política e não uma teoria. É isso que permite que o
anarquismo, mesmo em suas melhores expressões, acabe caindo no ecletismo,
usando como base (metodológica e/ou teórica) ideologias burguesas (positivismo
clássico, positivismo pós-estruturalista), bem como também desemboque com
relativa facilidade, devido seu voluntarismo, no dogmatismo, praticismo,
reboquismo, revolucionarismo.
Essa não é uma diferença pequena, pois quando o anarquismo
acaba assumindo posições burguesas como base teórica ou metodológica, se
compromete, pois isso acaba intervindo nas análises da realidade e, por
conseguinte, na prática política. Uma análise equivocada da realidade gera
tomada de decisões e realização de ações também equivocadas. As concepções
metodológicas e “teóricas” (ideológicas) burguesas, produzidas pelas mais
variadas ciências (especialmente as “humanas”) possuem toda uma base
valorativa, sentimental, racional e de interesses que são intimamente ligados à
sociedade capitalista e seu processo de reprodução. Não é preciso aqui resgatar
o caráter do positivismo clássico de Comte e outros, que teve ressonâncias nas
obras de Bakunin e outros anarquistas da época (Kropotkin, Reclus, etc.), e seu
vínculo com a reprodução do capitalismo e essência conservadora.
Da mesma forma, o caráter contrarrevolucionário do
pós-estruturalismo (“pós-modernismo”) é por demais evidente para que seja
preciso esclarecer que, partindo de suas concepções metodológicas e ideológicas
(supostamente “teóricas”) se poderia tomar decisões e executar ações
revolucionárias. Obviamente que no caso do anarquismo revolucionário isso é um
tanto minimizado, pois é unido com princípios revolucionários, mas que acaba se
autolimitando por causa de tal base. Uma base metodológica e ideológica
burguesa unida com uma doutrina revolucionária forma um ecletismo e dependendo
de qual lado da balança pesa mais, pode se tornar, na pior das hipóteses,
prejudicial para a luta pela libertação humana e, na melhor, algo limitado e
contraditório, gerando obstáculos para o seu desenvolvimento geral. Claro está
que isso ainda terá múltiplas nuances dependendo do contexto, conjuntura,
indivíduos, etc. Porém, a superação do ecletismo é fundamental para que o
anarquismo revolucionário assuma a posição que é coerente com seus princípios
fundamentais.
Poderíamos supor duas possibilidades para tal superação. A
primeira possibilidade seria adotar o marxismo como sua base
teórico-metodológica, o materialismo histórico-dialético (o que inclui não só o
método dialético, a teoria da história, como também a teoria do capitalismo). A
recusa tradicional do anarquismo de usar o materialismo histórico-dialético é um
forte obstáculo para a superação dessa problemática. Tal recusa tem como fonte
os conflitos entre Marx e anarquistas no passado, por um lado, e pseudomarxismo
e anarquismo posteriormente. Além disso, tem as posições distintas de Proudhon
e Bakunin, entre outros, devido influência do positivismo. No entanto, Bakunin
aceitou o materialismo histórico, apesar de não o ter compreendido
adequadamente, confundindo ele com o materialismo burguês e com a concepção
positivista, tal como se observa em sua discussão sobre materialismo e a
questão dos “fatos”. Esse é um obstáculo a mais, principalmente depois da
emergência do leninismo, expressão ideológica da burocracia, que deformou o
materialismo histórico-dialético, de acordo com os interesses da burocracia
partidária e capitalismo estatal russo e acabou se generalizando e tornando-se
a versão dominante do “marxismo”. Este é outro obstáculo para uma real
compreensão do materialismo histórico-dialético, o que traz a necessidade de
retomar a produção de Marx, bem como de seus melhores continuadores (Labriola,
Korsch, o jovem Lukács em alguns aspectos, Pannekoek, etc.).
A segunda possibilidade seria o anarquismo gerar, de forma
original, sua própria base teórico-metodológica. Essa solução, no entanto,
seria meramente formal, ou seja, uma mudança linguística, já que o materialismo
histórico-dialético já apontou para os elementos essenciais nesse processo e
seria apenas a mesma concepção sob outra forma, uma forma linguística nova para
uma concepção já existente. A única vantagem dessa solução seria apaziguar as
mentes dos anarquistas dogmáticos e não ter que se referir ao marxismo, algo
tão pueril e infantil que só tem sentido, da perspectiva do marxismo
autogestionário, por partir da ideia de que a luta e seu conteúdo é mais
importante e pode fazer esse tipo de concessão por não afetar o processo
revolucionário.
Nesse sentido, o marxismo autogestionário e o anarquismo
revolucionário possuem proximidades e distanciamentos, pontos em comuns e
pontos divergentes, sendo que em alguns casos a diferença é radical, expressa
distintas posições de classe, a perspectiva proletária do marxismo
autogestionário em confronto com a perspectiva burguesa ou de outra classe do
anarquismo dogmático, do individualismo ou anarcossindicalismo; noutros casos,
a diferença é reduzida, mas não abolida, pois devido a diversas outras
diferenças menores, ação política imediata, conjunturas, idiossincrasias, compreensão
da realidade, concepção de ação, diferenças terminológicas, etc., isso pode se
intensificar ou minimizar.
De qualquer forma, em relação às tendências anarquistas que não são aliadas do proletariado revolucionário[1], a
posição do marxismo autogestionário é de crítica e combate, bem como de esperança de avanço no
sentido de uma perspectiva revolucionária, sendo que na prática depende das
posições e ações concretas, qual tendência (emancipação humana via revolução
proletária ou vanguardismo-reboquismo que reforça a contrarrevolução) fortalece
nesse processo. No caso das tendências do anarquismo que se aliam ao proletariado
revolucionário, a posição do marxismo autogestionário é de aliança e luta
conjunta, desde que elas mantenham sua coerência nesse sentido.
Em síntese, marxismo autogestionário e anarquismo
revolucionário são próximos, mas diferentes e o que interessa em sua
aproximação é a contribuição com a emancipação humana, e o que os aproxima ou
distancia é a proximidade ou distanciamento em relação a este objetivo, a
revolução proletária autogestionária.
[1] Proletariado
revolucionário significa a classe proletária autodeterminada, ou seja, que
rompe com as relações de produção capitalistas, com o capital. Isso difere do
proletariado como classe determinada pelo capital, ou seja, que busca apenas
sobreviver ou melhorar sua situação no interior do capitalismo (realizando
apenas lutas reivindicativas), que é ponto de partida para a luta e avanço no
sentido de se tornar autodeterminado, mas que por isso mesmo é preciso travar
uma luta para que avance nesse sentido e os militantes e organizações
revolucionárias devem partir da perspectiva do proletariado como classe
autodeterminada. Ficar ao nível do proletariado como classe determinada (se
dizendo “anarquista”, “conselhista”, “situacionista”, etc.) é cair no
reboquismo, uma posição reformista mesmo não tendo vínculos com as instituições
burguesas. O voluntarismo, praticismo, anti-intelectualismo, entre outros
elementos, são bastante próximos a estes posicionamentos, muito comum no
anarquismo. Isso é produto de seu caráter doutrinário e não-teórico.
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