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segunda-feira, 27 de julho de 2015

Artigos marxistas autogestionários em espanhol

Autogestão e Ideologia - Nildo Viana


Autogestão e Ideologia
Nildo Viana*




A autogestão é um projeto que emerge no capitalismo e que ganha vários nomes, sendo que a palavra somente surge no final da década de 1960. Toda palavra, no entanto, está inserida num conjunto mais amplo de uma concepção que lhe dá o sentido. O sentido da palavra autogestão foi deformado com o passar do tempo e nesse contexto é preciso entender esse processo de deformação. Para entender tal processo é fundamental entender a ideologia. A razão para isto é devido ao fato de que a autogestão, no sentido original da palavra e como significado, é oriunda de uma teoria e sua deformação significa sua absorção por uma ideologia. Sendo assim, vamos iniciar o presente texto com uma discussão a respeito dos procedimentos ideológicos de deformação da autogestão e posteriormente colocar alguma de suas principais formas de manifestação no caso do termo autogestão, destacando sua principal forma contemporânea, a ideologia da economia solidária.

A Apropriação Ideológica da Autogestão

A ideologia é um sistema de pensamento ilusório, falsa consciência sistematizada, e sua produção está ligada aos interesses da classe dominante e/ou suas classes auxiliares. Trata-se de um saber complexo, sistematizado, que gera uma inversão da realidade, deforma a realidade apresentando-a e ao mesmo tempo ocultando-a. Não se deve confundir ideologia com ilusão em geral. As ilusões assumem várias formas, inclusive a forma do saber não complexo, do saber comum. Esse saber comum já foi chamado de “senso comum”, “cultura popular”, “saber popular”, “conhecimento cotidiano”, “representações sociais”, “representações cotidianas”, entre inúmeros outros nomes. As representações cotidianas são as formas do saber não complexo e não especializado que todos os seres humanos desenvolvem, inclusive os cientistas, filósofos e teólogos sobre os temas e questões que não abordam em suas produções profissionais/especializadas. A ideologia, ao contrário, é um saber complexo e por isso se distingue das representações cotidianas, inclusive as ilusórias. A ideologia produz ilusões, mas sob forma complexa, o que a torna mais convincente. A ideologia se manifesta como filosofia, teologia, ciência, etc.[1]

A humanidade sempre conviveu com as ilusões, mas antes das sociedades divididas em classes sociais antagônicas, a razão de sua existência era a falta de informação e compreensão da natureza e das relações sociais, devido ao grau de desenvolvimento das forças produtivas. Quando a humanidade supera em grande parte esse obstáculo, o que se amplia com o passar do tempo, ela cria uma nova necessidade de produção de ilusão, agora com raízes sociais: a divisão social do trabalho e as classes sociais com suas necessidades e interesses, especialmente as classes dominantes que precisam negar, de forma intencional ou não, um entendimento profundo das relações sociais, pois não pode declarar abertamente a exploração e a dominação, precisa justificá-las e isso é a fonte da produção da ideologia por parte dos ideólogos. Os próprios ideólogos são produtos da divisão social do trabalho. São aqueles que se especializam no trabalho intelectual e produzem formas de saber complexo que invertem a realidade.

A ideologia está intimamente ligada à luta de classes, não apenas por reproduzir os interesses da classe dominante e/ou de suas classes auxiliares, mas também no sentido de que uma das atividades dos ideólogos é combater as formas de consciência das classes exploradas. Eles fazem isso através da crítica, da desqualificação (como as classes exploradas, devido à divisão social do trabalho, não produzem saber complexo, a não ser em casos individuais, então a desqualificação das representações cotidianas, chamadas pejorativamente de “senso comum” é uma produção da ciência, da forma dominante de ideologia dominante), entre outras formas. No caso do capitalismo, uma das formas assumidas pela luta cultural da burguesia contra o proletariado é a de assimilar e deformar as ideias revolucionárias. Esse foi o caso do que foi feito com o marxismo, entre diversos outros exemplos. Também não faltam estudos que mostram como o saber operário em uma fábrica é apropriado e deformado pelos representantes da classe capitalista.

Esse é o caso da autogestão. A palavra autogestão tem dupla origem[2], mas seu conteúdo antecede sua existência formal. A palavra emerge no bojo do movimento do maio de 1968 na França, quando a rebelião estudantil e luta operária atingiram grande radicalidade e quase se tornou uma tentativa de revolução proletária[3]. Autogestão, nesse contexto, significava uma nova sociedade em substituição à sociedade capitalista. Esse significado foi deformado com a derrota da luta estudantil e proletária.

A derrota do maio de 1968 fez com que a classe capitalista e seus aparatos (principalmente seus ideólogos) realizassem uma contrarrevolução cultural preventiva, ou seja, criaram ideologias diversas para se apropriar e deformar as ideias revolucionárias que emergiram ou ganharam evidência nesse momento de ascensão das lutas sociais. Essa é a época de surgimento do chamado “pós-modernismo”, um nome já problemático e que revela uma consciência falsa, e por isso outros denominaram “pós-estruturalismo”[4]. Isso se aplicou a diversos termos, incluindo ao termo de autogestão. A palavra, que era um outro nome para o que Marx denominou “comunismo”, “livre associação dos produtores”, “autogoverno dos produtores”, etc. ou o que alguns anarquistas denominaram “anarquia”, uma nova sociedade sem estado, classes, capital, etc. fundada no processo no qual a população dirige ela mesma o seu destino e o conjunto das relações sociais, foi reduzida a uma parte do todo e retirada do contexto, que era a sociedade do futuro.

Após essa contrarrevolução cultural preventiva, a palavra autogestão passa a ser usada pelos reformistas e outros, retirando seu caráter revolucionário. Esse processo ocorreu com outros termos, mas ela é o nosso foco aqui. O procedimento ideológico para deformar o termo autogestão é o mesmo que para os demais termos: destotalização e despolitização. A destotalização se caracteriza por negar a importância metodológica da categoria de totalidade, o que significa retirar determinado fenômeno social de seu contexto histórico, social, sua inserção na sociedade como um todo. Derivado disso, ocorre o processo de despolitização, pois assim vira algo meramente técnico, isolado, desligado do Estado, das lutas de classes, do capital, etc.

As diversas concepções ideológicas de autogestão que irão surgir terão essa característica fundamental: retirar a autogestão da totalidade e substituir a concepção totalizante por uma fragmentadora. Assim, há a transformação da autogestão em mero elemento de administração, em algo semelhante a uma cooperativa, etc. A autogestão deixa de ser uma nova sociedade autogovernada pelo conjunto da população e passa a ser gestão de empresas isoladas, cooperativas isoladas, democracia direta, etc. Esse é o procedimento ideológico da deformação da autogestão, pois através deste fantástico e pouco realista desligamento da autogestão da totalidade das relações sociais e abolindo a percepção de que sob forma isolada é impossível sua existência, a não ser temporariamente ou em escala muito limitada e estando distante do Estado e do capital.

As Principais Concepções Ideológicas de Autogestão

Desde o início dos anos 1970, com a contrarrevolução cultural preventiva depois da derrota do Maio de 1968 (VIANA, 2009), começaram a existir diversas deformações do termo autogestão e seu significado. A burocracia partidária, expressa nos partidos socialdemocratas e bolchevistas, buscaram desqualificar a autogestão, colocando que ela era “impossível”, “esquerdista”, “utópica”, etc., ou colocando como parte do seu programa, mas não enquanto projeto de uma nova sociedade, apenas como forma de “gestão democrática”. Esse é o caso da CFDT (Confederação Francesa Democrática do Trabalho, central sindical), PSU (Partido Socialista Unificado), PCF (Partido Comunista Francês, que até se colocou contra o movimento estudantil em 1968), PS (Partido Socialista), CGT (Central Geral dos Trabalhadores, central sindical atrelada ao PCF), etc.

A CFDT foi a primeira e graças ao seu ideólogo, Pierre Rosavanllon, autor de A Era da Autogestão, obra publicada em 1976, iniciou o processo de deformação assimiladora da palavra, sob forma sistemática, ao contrário de outros (tal como alguns bolchevistas, que preferiram negar e criticar a ideia de autogestão). A concepção de autogestão em Rosavanllon é reformista, algo gradual, e que seria uma espécie de forma de gestão das fábricas e empresas, que, com o processo gradual de transformação, se tornaria um dos pilares da sociedade futura (ROSAVANLLON, 1979). Ou seja, autogestão aqui não é totalidade, é parte, a parte política garantida pelo “direito social”, ou seja, uma versão jurisdicista da autogestão. A segunda forma de deformação ideológica da autogestão pode ser vista em Jean-Luc Dallemagne na qual ocorre a recusa da autogestão e uma interpretação ideológica que mescla a concepção de seus defensores com posições reformistas e esquerdistas, visando defender a necessidade de burocracia no “socialismo”, bem como interpretando-a como mera questão de “gestão” (DALLEMAGNE, 1977).

Essas primeiras formas de deformação da ideia de autogestão seriam reforçadas e ampliadas especialmente nos anos 1980, quando a própria classe capitalista passa a querer se apropriar do termo autogestão e transformá-lo em algo compatível com o capitalismo, tornando-se mera “gestão de empresas” (LOJKINE, 1990). Da mesma forma, algumas tendências supostamente de “esquerda” passam a usar o termo autogestão num sentido próximo ao dos reformistas franceses, seja como cooperativa ou “economia solidária”, seja como algo que ocorreria apenas no interior das fábricas. Por isso torna-se necessário a crítica das ideologias que deformam o conceito de autogestão e para isso é necessário mostrar a impossibilidade da autogestão no interior do capitalismo.

Autogestão e Capitalismo

A palavra autogestão, especialmente a partir de 1980, passou a ser usada para designar coisas como “democracia direta”, “forma de gestão ou administração”, “cooperativa” ou “economia solidária”, entre outras concepções ideológicas. Todas essas concepções são ideológicas por utilizar o termo autogestão como se fosse apenas uma parte da sociedade, algo restrito, e que, a partir desse processo de extração do conteúdo totalizante do conceito, pode pensá-lo no interior de outra totalidade, ou seja, dentro do capitalismo.

Pensar a autogestão como “democracia direta” significa pensá-la a partir de uma concepção ideológica, mesmo para quem se diz anarquista ou use qualquer outro nome. Isso ocorre por reproduzir a concepção ideológica que separa a realidade em diversas partes separadas e separáveis, promovendo um isolamento de coisas que estão unidas na vida real. Sem dúvida, a divisão social do trabalho no capitalismo cria a política institucional (a instância do Estado e dos aparatos burocráticos), bem como o modo de produção capitalista cria um conjunto de divisões e se distingue de outros aspectos da realidade, assim como se cria um setor especializado na produção cultural. Contudo, mesmo no capitalismo, a “política”, a “economia”, a “cultura”, etc., não estão separadas totalmente. Eles são partes do todo e sua relativa separação é marcada pela relação, determinação, imbricação, correspondência, etc. A doutrina dos fatores – uma ideologia que divide a realidade em “fatores”, tais como o “fator político”, “fator econômico”, etc. – como se eles fossem independentes e autônomos, revela apenas a percepção da aparência da divisão social do trabalho no capitalismo[5]. Essa percepção da aparência, por se limitar a ela, é fetichista e ideológica. O projeto autogestionário é totalizante não por reduzir a divisão social do trabalho e sim por aboli-la e, portanto, numa sociedade autogerida, nem no nível da aparência tais divisões seriam percebidas, já que seriam inexistentes.
A ideia de “democracia direta” é em si problemática e considerada sinônimo de autogestão significa reduzir o projeto autogestionário a algo que seria separado, a instância política, tal como no capitalismo. Assim, isso significa pensar a sociedade do futuro, como suas relações sociais radicalmente diferentes, a partir dos termos e construtos do presente, que expressam as relações do capitalismo. Ao projetar termos e construtos do capitalismo para a sociedade autogerida, essa concepção simplesmente deforma a ideia de autogestão, sendo a projeção do capitalismo e sua divisão social do trabalho para o futuro, tendo caráter contrarrevolucionário. Além disso, ainda promove a confusão de pensar na possibilidade da autogestão no interior do capitalismo, pois sendo apenas uma parte da realidade, a da política, se poderia pensar em “democracia direta” no seu interior.

A ideia de autogestão como “gestão de empresas”, seja de “fábricas recuperadas”, seja como forma de administração de empresas capitalistas, é outra deformação ideológica do conceito original. As empresas capitalistas funcionam para realizar o processo de exploração e uma “autogestão” no seu interior é impossível. Nesse caso, o que pode existir é “participação”, “controle operário” ou “cogestão”. A participação é o que ocorre nas empresas capitalistas que usam formas de administração participativas, nas quais os trabalhadores podem influenciar, discutir, e até mesmo decidir alguns aspectos do processo produtivo, mas jamais o processo em sua totalidade. A classe capitalista jamais permitiria isso, embora, sem dúvida, possa usar um nome bonito como “autogestão” e permitir a participação dos trabalhadores em parte do processo para aumentar a produtividade e a docilidade dos mesmos. Essa participação pode ser mais ampla e permitir o que foi denominada “controle operário”, processo no qual a participação geral é mais intensa e o processo de trabalho fica sob o controle dos trabalhadores. Aqui é apenas uma questão de grau, quantitativo, e o processo de trabalho, uma parte do processo de produção em geral, fica sob a responsabilidade do controle dos trabalhadores. Ou seja, trata-se de controle de apenas uma parte da produção e não de sua totalidade.

As chamadas “fábricas recuperadas” são empresas capitalistas falidas ou abandonadas que os trabalhadores passam a gerir. Aqui nós temos o caso da cogestão, pois o processo de trabalho e o conjunto da produção em determinada fábrica ou empresa passa a ser gerida pelos trabalhadores. No entanto, isto não é autogestão, por mais que alguns insistam em usar tal termo. É cogestão, pois autogestão pressupõe a gestão de todo o processo, nos meios e fins, na forma e no conteúdo. A fábrica isolada está submetida ao mercado, à necessidade de matérias-primas, tecnologia, máquinas em geral, bem como o que produz é para o mercado e não para o autoconsumo. Nesse sentido, a gestão é apenas do processo de produção local, ou seja, na unidade de produção, sem haver autogestão das demais unidades de produção (fornecedores, etc.), sem controle do que se produz e para quem se produz. Trata-se de cogestão porque se define apenas o como se produz.

A última forma de ideologia assimiladora da autogestão, que por sua vez pode assumir inúmeras outras formas, é a do cooperativismo. As cooperativas são formas organizacionais que trabalhadores utilizam para coletivamente produzir ou consumir. Elas parecem se aproximar mais da autogestão, pois nelas a figura do capitalista inexiste. Mas, tal como no caso das fábricas recuperadas, as cooperativas estão envolvidas na divisão capitalista do trabalho e, portanto, decidem apenas o como produzir e não os demais aspectos, é uma gestão de uma unidade de produção cercada pelo modo de produção capitalista.

Todas essas concepções ideológicas de autogestão se espalham pela sociedade e visam, na maioria dos casos, simplesmente apagar da memória social a luta heroica do final dos anos 1960 e as lutas revolucionárias do início do século 20, entre diversas outras, bem como as teorias e concepções revolucionárias produzidas por Marx e diversos outros. A autogestão é uma totalidade, é uma nova sociedade, como “anarquia”, “comunismo”, sendo que o último nome também foi deformado e o primeiro está ligado a uma corrente política com múltiplas subdivisões e, portanto, definições.

A autogestão não somente é uma totalidade, como não pode ser desligada da mesma e existir em outra. Por isso é impossível autogestão no interior do capitalismo, a não ser em experiências temporárias e esporádicas, existindo através do conflito permanente. Dificilmente ela se prolonga por muito tempo. Nas melhores tentativas é uma “autogestão imperfeita”, ou seja, é mais um objetivo do que uma realidade. E existem diversos motivos para ser assim. Nas épocas de revolução social, a autogestão se manifesta de forma mais desenvolvida e completa e caminha para sua generalização, o que pode ser impedido pela contrarrevolução, o que geralmente ocorreu na história das lutas revolucionárias. Em períodos não-revolucionários, é impossível a autogestão em empresas. Para entender isso é necessário entender o capitalismo, outra forma de sociedade, outra totalidade.

No capitalismo, o capital predomina e o mercado, o lugar das relações entre os capitais privados, acaba cercando tudo e realizando o processo de mercantilização das relações sociais, bem como da transformação de todas as formas de produção em capitalistas, semicapitalistas ou subordinadas ao capitalismo[6]. O cálculo mercantil se torna predominante não apenas na produção capitalista, mas em todas as formas de produção e distribuição da sociedade capitalista. As empresas capitalistas são aquelas voltadas para a produção de mais-valor ou para a sua reprodução/repartição, incluindo o capital industrial, comercial, educacional, comunicacional, etc. Qualquer pequena empresa acaba tendo que se submeter ao domínio do capital e optar por ser capitalista, semicapitalista ou subordinado ao capitalismo. As cooperativas são semicapitalistas e o modo de produção camponês subordinado ao capitalismo. Para entender esse processo devemos reconstituir o processo de passagem do não-capitalismo para o capitalismo.

A transição do feudalismo para o capitalismo significou não somente a queda paulatina do modo de produção feudal, mas o surgimento do modo de produção capitalista e diversos modos de produção subordinados. O modo de produção camponês, por exemplo, emerge nesse contexto histórico marcado pela subordinação ao capitalismo. No modo de produção camponês há a produção de valores de uso e valores de troca, ou seja, se produz para o autoconsumo e para o mercado, sendo que é neste último que se concretiza a subordinação, bem como através da ação estatal.

Esse processo abre espaço para a criação de modos de produção semicapitalistas, fundados em pequenas propriedades sem uso de força de trabalho assalariada. Essas formas de produção se assemelham ao modo de produção camponês e demais modos de produção subordinados, mas com o diferencial de que produzem apenas valores de troca, ou seja, produzem para o mercado e não produzem os valores de uso, para o autoconsumo (o que não impede, em certos casos, de consumir coisas produzidas, mas elas são processos nos quais o consumo é de mercadorias, ou seja, do que foi produzido para venda e subtraído, entrando na contabilidade geral do processo de produção e em quantidades limitadas para não comprometer o lucro e sobrevivência da mesma).

Este é o caso do modo de produção cooperativista. As cooperativas de produção[7] são um modo de produção semicapitalista, pois não só estão totalmente subordinadas à divisão capitalista do trabalho, como também realizam o processo de produção exclusivo de mercadorias. A repartição do lucro é realizada sob duas formas, a especificamente capitalista, salários e a forma cooperativa, rendimentos pela propriedade coletiva. Ela é semelhante à cogestão das fábricas, pois nessas os trabalhadores se tornam proprietários e recebem além do salário um outro rendimento. Contudo, existem casos em que alguns ganham apenas rendimentos, outros apenas salários, e casos em que recebem ambos. Na cooperativa, os trabalhadores determinam o como produzir, mas não os demais aspectos. Claro que em diversas experiências existe uma divisão entre proprietários e assalariados e isso significa que a cooperativa se transformou numa empresa capitalista.

Esse processo de passagem de modo de produção semicapitalista, cooperativista, para capitalista, é resultado do sucesso das cooperativas no interior do modo de produção capitalista. Quanto maior é o desenvolvimento das cooperativas, mais elas se integram no capitalismo, e passam a criar obstáculos para entrada de novos sócios, buscam o aumento do lucro e gerar a separação entre trabalhadores assalariados e dirigentes/proprietários. Assim, há uma metamorfose nas cooperativas, tanto no processo histórico que amplia sua integração no capitalismo, quanto pelas formas capitalistas de apropriação delas, seja colocando-as como apêndices lucrativos ou usando-as como fachadas para exploração capitalista disfarçada. As cooperativas não possuem condições de assumir um papel revolucionário, pois nascem e se desenvolvem na sociedade capitalista, subordinadas ao mercado, ou seja, aos capitais individuais. Ou elas fracassam e falem, ou prosperam e se tornam capitalistas.

Mas não é apenas a dinâmica capitalista do mercado dominado pelos capitais individuais que corroem as cooperativas. O Estado cumpre um papel fundamental nesse processo, sob as mais variadas formas: legislação, impostos, taxas, etc. As cooperativas precisam ser legalizadas e atender um conjunto de requisitos impostos pelo Estado, bem como dispêndios que esse exige, tornando sua vida ainda mais difícil de autossustentação.

Outros elementos da sociedade capitalista interferem e contribuem para o fracasso ou apropriação capitalista delas, tal como a cultura, a mentalidade e os valores dominantes. No início do século 19 foi possível pensar um cooperativismo revolucionário, que logo foi superado pelo reformista e pelo pragmático, até chegar à ideologia da economia solidária[8]. E os ideólogos e ideologias são outros obstáculos para as cooperativas, que se tornaram apêndices do capitalismo. Por isso é importante analisar uma das mais fortes ideologias que deturpam a ideia de autogestão hoje e que é uma forma contemporânea de se pensar o cooperativismo, a chamada “economia solidária”.


A Ideologia da Economia Solidária
A chamada “economia solidária” é uma nova versão ideológica de deformação do conceito de autogestão. O que se chama “economia solidária” é, no fundo, uma forma de cooperativa degenerada. Na verdade, a dita “economia solidária” não apresenta nada de muito novo em relação às cooperativas pragmáticas, a não ser que em muitos casos fazem um discurso pseudorrevolucionário, aliado a um atrelamento maior ao Estado capitalista, e vive vegetando na sociedade capitalista ou realizando a passagem para a forma capitalista de produção.

Quais são as reais diferenças entre a economia solidária e as cooperativas pragmáticas? No fundo, as diferenças concretas, reais, da economia solidária em relação às cooperativas pragmáticas são: a) o discurso pseudorrevolucionário que apela para “solidariedade”[9] e que se coloca como um modo de produção intersticial que caminha para o socialismo; b) a sua constituição no contexto cultural e social do capitalismo contemporâneo, marcado pelo regime de acumulação integral, com seu Estado neoliberal e suas políticas de redução de gastos estatais e responsabilização da sociedade civil, aliado ao aumento do desemprego e nesse contexto as cooperativas chamadas solidárias servem como estratégia de sobrevivência e atraem desempregados e subempregados; c) o seu atrelamento ao Estado, através do SENAES – Secretaria Nacional de Economia Solidária, FBES – Fórum Brasileiro de Economia Solidária, entre outras instituições estatais, incluindo as universidades[10].

O financiamento estatal e do capital bancário é apenas a forma do capital assimilar tais experiências. Enquanto o cooperativismo revolucionário do século 19 era produção dos próprios trabalhadores, o cooperativismo estatista, chamado “economia solidária”, pode emergir a partir de iniciativas estatais ou dos próprios trabalhadores, mas que são assimiladas e coordenadas pelos governos ou suas instituições. O primeiro processo ocorre por incentivo e iniciativa do governo e o segundo quando a iniciativa é de setores da população que o Estado passa a coordenar em sua rede de instituições, supostamente de apoio, mas, no fundo, de atrelamento.

O interesse estatal na economia solidária é fundamentalmente diminuir os conflitos sociais e desemprego, graças aos seus efeitos problemáticos para a governabilidade, bem como cooptar diversos setores da sociedade, principalmente os mais beneficiados com a cooperativas estatistas[11].

O discurso ideológico da economia solidária se manifesta sob várias formas e não é nosso objetivo analisá-lo aqui em sua totalidade. No fundo, as iniciativas de economia solidária são ou formas de manifestação do modo de produção cooperativista, logo, semicapitalista, ou formas capitalistas disfarçadas. Logo, não tem nada a ver com autogestão. Obviamente que um dos aspectos de sua concepção ideológica reside justamente em usar o termo autogestão. Claro está que o uso da palavra autogestão na economia solidária é ideológico e também limitado, ou seja, não tem o caráter totalizante de autogestão do processo de produção e do conjunto das relações sociais. Nem sequer se coloca como autogestão das cooperativas. A autogestão nas empresas de economia solidária refere-se a apenas um dos seus aspectos, o administrativo[12]. Nesse caso, a relação entre economia solidária e autogestão é apenas imaginária, uma ficção que serve aos interesses do capital e do Estado e dos cooptados por ela.

As empresas cooperativas estatistas, chamadas de “economia solidária”, estão submetidas ao capital e ao Estado, como todas as cooperativas, só que, no caso do aparato estatal, de forma mais intensa. Em suas formas mais desenvolvidas e consolidadas, são empresas capitalistas disfarçadas e em suas formas mais precárias, são formas de disfarçar o trabalho precarizado e estratégia de diminuição do desemprego. Nesse sentido, economia solidária nada tem a ver com o projeto autogestionário e o tratamento que os seus ideólogos dão a essa palavra é apenas mais uma deformação ideológica do seu significado.

A ideologia que afirma tratar-se de um modo de produção intersticial, ou seja, um espaço de produção não-capitalista dentro do capitalismo, que poderia se generalizar, superando o capitalismo, tal como sugerido por Paul Singer (), é absolutamente falsa. Ela é falsa por vários motivos. Um deles remete ao fato de que o modo de produção cooperativista é semicapitalista e vegeta no capitalismo. Ele não constitui alternativa ao capitalismo e nem tem capacidade de se generalizar, pois sua prosperidade, enquanto empresa cooperativa particular, significa sua passagem para se tornar uma empresa capitalista e seu fracasso significa a falência. Da mesma forma, a ampliação do número de cooperativas só seria possível se fossem as prósperas, que já não são mais cooperativas propriamente ditas e sim empresas capitalistas. A ampliação de cooperativas que fracassam e são precárias é algo tão fantástico e fantasioso que só no mundo ilusório da ideologia isso poderia ocorrer. Um modo de produção semicapitalista ao se desenvolver se torna capitalista e ao não se desenvolver, entra em colapso e deixa de existir.

O modo de produção cooperativista, por ser um modo de produção semicapitalista, não tem como ser uma alternativa ao capitalismo. Ele nasce dentro do capitalismo e segue a dinâmica do mercado e a regularização do Estado, reproduzindo internamente a dinâmica de um modo de produção semicapitalista. A sua dinâmica é a mesma das pequenas propriedades[13] no interior do capitalismo. Assim, a sua comparação, novamente, como modo de produção camponês e o modo de produção das pequenas propriedades no capitalismo ajudam a entender sua dinâmica.

O modo de produção capitalista tem sua dinâmica centrada na acumulação de capital, no qual o investimento em dinheiro permite a produção de mercadorias e exploração do trabalho do proletário, que gera mais dinheiro, sendo este reinvestido, aumentando a produção/exploração e o lucro e, por conseguinte, o dinheiro, e assim sucessivamente. O seu movimento pode ser esquematizado da seguinte forma: D-M-D’-M-D’’-M-D’’’[14] e assim sucessivamente, representando a reprodução ampliada do capital, o que gera a concentração e centralização do mesmo.

O modo de produção camponês tem outra dinâmica. Ele produz parte do que é consumido e devido sua subordinação ao capitalismo, não consegue acumular capital. A sua dinâmica pode ser esquematizada assim: M-D-M, ou seja, produz mercadoria para a venda no mercado e com isso adquire o dinheiro para comprar mercadorias que não produz, o que é possível porque além de produzir mercadorias produz produtos para autoconsumo, valores de uso, e só compra o que não consegue produzir.

O modo de produção das pequenas empresas, ou “pequeno-burguês”, possui outra dinâmica. Embora possa consumir alguns itens que produz, é algo muito restrito, pois sua inserção no mercado e o tipo de produção é voltada para atender ao consumo alheio. Ele produz mercadorias exclusivamente ao contrário do modo de produção camponês. Isso não só lhe torna mais dependente do mercado como também gera outra dinâmica. Essa é a dinâmica da produção que se autossustenta e obtém um lucro mínimo, o que faz com que sua reprodução seja problemática. Tal como no caso do campesinato, sua propriedade é nominal, é mais posse do que propriedade, pois os meios de produção que constituem o capital fixo (terra, instalações, máquinas, etc.) são pagos em longo prazo, ou são hipotecados, etc., e sua manutenção é sempre difícil. Eles estão, como os camponeses, subordinados à força do grande capital comercial e das outras formas do grande capital e da regularização do Estado burguês. A sua dinâmica pode ser assim esquematizada: D-M-D’-M-D’-M-D’’-M-D’, ou seja, a sua acumulação é lenta e pode regredir, falindo ou tornando-se presa fácil para as empresas capitalistas, cuja concentração e centralização destroem as empresas menores (mesmo capitalistas e com lucratividade elevada).

Essa é a mesma dinâmica do modo de produção cooperativista e da sua versão ideológica denominada “economia solidária”, que tem uma maior possibilidade de existir e talvez se manter graças ao seu caráter estatista, pois o apoio do Estado (financeiro, técnico, etc.) faz com que as falências demorem mais ou ajudam na prosperidade daqueles que abandonam o caráter cooperativo para assumir a forma capitalista.
Isso significa que a produção cooperativista, e a “economia solidária” mais especificamente, não são um modo de produção “intersticial” que possa ser alternativa ao capitalismo. Trata-se de um modo de produção semicapitalista, voltado para a produção de mercadorias e subordinado ao mercado e ao Estado, sem a menor possibilidade de se opor ao capitalismo ou de superá-lo.

Esse processo, no entanto, está ligado ao problema mais geral de que o comunismo ou a autogestão social não pode emergir dentro do capitalismo, já que é engolido pelo movimento do capital. Se o capitalismo emerge no interior do feudalismo em crise, é devido ao fato de que ele nasce da propriedade privada burguesa[15], a sua superação não pode ocorrer no seu interior, graças à sua dinâmica que destrói qualquer concorrente, pois a reprodução ampliada do capital, como diz o nome, é insuperável por outras formas de produção. É por isso que a autogestão não surge como modo de produção dentro do capitalismo, ou, como diriam outros, “economicamente”.

A autogestão como processo de domínio coletivo dos seres humanos associados sobre o seu destino e o processo de produção e do conjunto das relações sociais, é totalizante, mas se inicia na luta, na negação do capitalismo e afirmação de si, que é afirmação da auto-organização e autoformação. Não é no mercado e com propriedades, pequenas ou não, supostamente coletivas ou não, que a autogestão se coloca como possibilidade. A sua possibilidade pressupõe a superação do capitalismo e esta não é feita por concorrentes (sejam pequenos empresários ou cooperativas) e sim por dentro, pelo próprio proletariado que é explorado e pode destruir as relações de produção capitalistas e construir as relações de produção comunistas e isso pode se iniciar nas fábricas, empresas, lojas, mas tem que se generalizar para toda a sociedade, não apenas no campo da produção, mas também em todas as formas sociais (abolindo o Estado, o mercado, o dinheiro, gerando novas relações sociais de produção do saber, etc., todos sob o signo da autogestão).

A autogestão, como processo de domínio consciente dos indivíduos sobre suas vidas, emerge quando a luta expressa isso e, portanto exige organização coletiva autogerida e consciência desenvolvida desse processo, não só do presente (um conselho de fábrica que consegue perceber e realizar a autogestão de sua luta), mas do futuro, colocando a necessidade de realização do projeto autogestionário, que é a generalização da autogestão, o que implica, por sua vez, a superação da totalidade do capitalismo (capital, estado, etc.). Logo, nada mais ilusório do que o discurso ideológico da “economia solidária”, inclusive com o agravante de pensar que o Estado capitalista – com apoio de instituições burguesas e empresas capitalistas – incentivaria, como é o caso, o anticapitalismo dentro do capitalismo. No máximo, a economia solidária é um concorrente e pobre do capital, que tão logo se amplia, se transforma nele. É um sócio menor que quer ser como o maior. A autogestão é sua negação total e nasce das lutas autogeridas e não de empresas semicapitalistas.

Referências

ARVON, Henry. La Autogestion. 2ª edição, México: Fondo de Cultura Económica, 1982.

DALLEMAGNE, Jean-Luc. Autogestão ou Ditadura do Proletariado. Lisboa, Socicultur, 1977.

DURKHEIM, Emile. Da Divisão do Trabalho Social. São Paulo, Martins Fontes, 1995.

LABRIOLA, Antonio. La Concepcion Materialista de la História. Madrid, Era, 1979.

LOJKINE, Jean. Novas Políticas de Integração Patronal ou Premissas Autogestionárias? In: SOARES, Rosa Maria (org.). Gestão da Empresa, Automação e Competitividade: Novos Padrões de Organização e de Relações de Trabalho. Brasília: IPEA, 1990.

PLEKHANOV, G. A Concepção Materialista da História. 4ª edição, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1974.

ROSANVALLON, Pierre, La autogestión. Madrid, Fundamentos, 1979.

SINGER, Paul. Introdução à Economia Solidária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002.

VIANA, Nildo. A Consciência da História – Ensaios sobre o materialismo histórico-dialético. 2ª edição, Rio de Janeiro: Achiamé, 2007.

VIANA, Nildo. Cérebro e ideologia. Jundiaí: Paco Editorial, 2010.

VIANA, Nildo. O Capitalismo na era da acumulação integral. São Paulo: Idéias e Letras, 2009





* Nildo Viana é sociólogo e filósofo.

[1] Para maiores detalhes sobre ideologia, veja Viana, 2011.

[2] A origem do conteúdo remete ao movimento revolucionário do século 19 e antecede a origem formal que foi no maio de 1968 em Paris.

[3] Isso foi antecedido pelo uso do termo na antiga Iugoslávia, sendo adotado na França e ganhando significado distinto e revolucionário (ARVON, 1982).

[4] O termo pós-estruturalismo é utilizado por que essas ideologias surgem depois do modismo estruturalista nas ciências humanas e filosofia nos meios acadêmicos, superado pela própria luta de classes. O termo pós-modernismo é muito mais ambicioso, quer romper com o modernismo (toda produção cultural do período moderno, ou seja, capitalista) e é por isso que grande parte dos ideólogos também defende a ideia de que a sociedade capitalista foi substituída por uma sociedade pós-moderna.

[5] A crítica da ideologia dos fatores é antiga, e seus pioneiros foram Plekhanov (1974) e Labriola (1979). Veja também Viana, 2007.

[6] Para um aprofundamento sobre isso, confira meu livro A Mercantilização das Relações Sociais – Modo de Produção Capitalista e Formas Sociais Burguesas.

[7] As cooperativas de crédito e de consumo, como expressam relações de distribuição capitalistas, e se encontram na imbricação entre modo de produção e formas sociais de regularização, são, então, capitalistas, já que seu papel é possibilitar a reprodução do capitalismo.

[8] A história do cooperativismo acompanha a história do desenvolvimento capitalista e dos regimes de acumulação e por isso é possível observar que o cooperativismo revolucionário é da época da acumulação extensiva, o cooperativismo reformista da acumulação intensiva, o cooperativismo pragmático da acumulação conjugada e o cooperativismo estatista da acumulação integral.

[9] A solidariedade é um valor universal, autêntico. No entanto, os valores autênticos são deformados se inseridos numa proposta de valores dominantes, axiológicos. Por conseguinte, defender a solidariedade pode parecer revolucionário numa sociedade competitiva como a capitalista, mas isso depende do conjunto do discurso. Um exemplo ilustra essa questão: o sociólogo conservador e moralista, Émile Durkheim, colocou a solidariedade como um dos pilares do seu edifício ideológico e axiológico (DURKHEIM, 1995). Ele postulava a existência de uma solidariedade na sociedade moderna (capitalista) e por isso negava a existência da luta de classes e da necessidade de transformação social radical. Da mesma forma, a questão da solidariedade, pode ser usada para sustentar e reproduzir os valores dominantes e a sociedade capitalista.

[10] E complementarmente instituições privadas e as chamadas ONGs e Terceiro Setor.

[11] Não é sem motivo que tal iniciativa emerge no governo neoliberal de Lula, visando cooptar setores da sociedade civil para garantir a manutenção do Partido dos Trabalhadores no poder. O seu caráter estatista é pouco percebido graças ao próprio discurso da economia solidária e sua estratégia ideológica de assimilar outras experiências históricas, como as do cooperativismo revolucionário.

[12] Isso pode ser visto na obra de seu principal ideólogo, Paul Singer (2002), tal como se vê no livrinho Introdução à Economia Solidária (publicado pela Fundação Perseu Abramo, do Partido dos Trabalhadores), no qual seria mais “democrática” e nas empresas maiores, mesmo estas tendo hierarquias, partiriam de “baixo para cima”. Obviamente que isso é apenas discurso, e falso, que não parte das relações sociais concretas, mas mesmo se fosse assim, no caso das pequenas empresas “solidárias”, não seria autogestão e sim, no máximo, cogestão. Nas grandes empresas “solidárias” nem cogestão existe, pois os trabalhadores estão separados da direção e esta concretamente toma as decisões e possuem as informações e outros meios de administração que os trabalhadores não possuem.

[13] As pequenas propriedades são geralmente aquelas empresas que possuem apenas o trabalho familiar ou agregado de poucos assalariados que ocupam espaços em que o capital ainda não tomou conta ou que o fez de forma incompleta, deixando formas marginais de produção. Trata-se do que alguns chamam de “pequeno-burguês”, mas que a diferença em relação ao modo de produção capitalista não é apenas de quantidade, mas também de qualidade e que dá margem para a confusão da classe dos pequenos proprietários com a dos capitalistas por causa do nome “burguês”.

[14] D = dinheiro; M = mercadoria; D’ = mais dinheiro que D; D’’ = mais dinheiro que D’.

[15] Ou pequeno-burguesa, como alguns diriam, sendo que o sucesso desta está ligado ao processo histórico, no qual a existência de poucas grandes empresas permitia que as pequenas prosperassem e se tornassem grandes, o que ocorreu e no momento histórico posterior, essas ex-pequenas empresas que agora são grandes impedem o desenvolvimento de novas pequenas empresas.

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Publicado originalmente em:

quarta-feira, 15 de julho de 2015

A Luta Operária e os Limites do Autonomismo - Karl Jensen

A Luta Operária e os Limites do Autonomismo
Karl Jensen


A luta operária se desenvolve em três estágios diferentes e o movimento revolucionário deve agir no sentido de que ela chegue ao seu terceiro estágio, que é o da luta verdadeiramente revolucionária. Esta é a tese que desenvolveremos aqui. Os três estágios da luta operária são: a) o das lutas espontâneas; b) o das lutas autônomas; c) o das lutas autogestionárias. Faremos uma breve discussão sobre estes estágios da luta proletária e depois veremos sua relação com o movimento revolucionário.

O Desenvolvimento da Luta Operária

As lutas espontâneas ocorrem no interior do capitalismo na vida cotidiana dos trabalhadores. Quando um operário realiza vagarosamente o seu trabalho (a chamada “operação-tartaruga”), quando quebra, rouba utensílios e objetos da fábrica, quando demora no banheiro, quando “mata” serviço, etc., realiza uma ação contestatária, uma recusa das relações de trabalho, enfim, uma recusa do capital. Trata-se de uma ação que aparentemente não tem nada de crítica, contestatória, ou, como diria um leninista-vanguardista, é apenas demonstração de sua falta de consciência socialista.

O que falta nas lutas espontâneas é um discurso, é a consciência da ação. Em outras palavras, falta a manifestação da consciência da ação em um discurso. O discurso se realiza através de códigos verbais que revelam significados. Uma ação, por sua vez, também tem seu código, ou seja, também carrega em si significados. O problema é a forma que assume cada expressão de significados. A forma discursiva é verbal, realiza a reconstituição consciente do que existe através dos signos linguísticos. A forma prática é ativa, é direta, não utiliza signos embora manifeste significados. Assim, é possível realizar uma transcodificação da ação em discurso, através não dos signos mas dos significados. Se um operário não vai ao trabalho uma vez a cada dois meses, isto não é nenhuma manifestação discursiva, de signos. No entanto, a ação de não ir ao trabalho (dentro de um contexto específico, é claro, ou seja, desde que não seja por doença, etc.) possui um significado: este operário contesta o seu trabalho, está insatisfeito com ele, não se realiza nele e não quer realizá-lo, o faz apenas para ganhar dinheiro e sobreviver, é um meio que ele se submete por coação. Desta forma, a transcodificação da ação em discurso demonstra a recusa das relações de trabalho, a recusa do capital.

As lutas operárias espontâneas possuem este significado: uma recusa prática do capital. No entanto, por ser uma recusa prática, não-discursiva, ela é uma ação contestatória sem consciência revolucionária. Por isso ela ocorre no cotidiano da fábrica, no processo de trabalho, sem produzir uma ação coletiva e consciente, ou seja, uma consciência revolucionária.

O segundo estágio da luta operária é o das lutas autônomas. Aqui o discurso nasce, ainda fragmentado, ainda incompleto, ainda incipiente, tal com as lutas travadas. Aqui a ação torna-se coletiva: as reuniões, os panfletos, a greve, o piquete, entre outras formas. Aqui se recusa o capital mas não só ele, como um produto derivado dele: a burocracia. Aqui as lutas operárias já significam algo mais, significam a recusa dos representantes, dos partidos reformistas e leninistas. A consciência de classe, apesar de suas contradições, já sabe que sua ação é uma recusa e a associação operária se forma. Devido a isto, as lutas operárias autônomas significam uma prática coletiva e contestadora que assume um nível de radicalidade elevado. Daí a reação burguesa e burocrática, bem como o conflito e luta encarniçada, ou seja, a radicalização da luta de classes. A vitória burguesa ou burocrática significa a volta à normalidade capitalista. A vitória proletária significa a passagem para as lutas operárias autogestionárias. Assim, as lutas autônomas não ocorrem cotidianamente, mas em determinados momentos históricos, quando há um processo de radicalização do movimento operário. Este processo marca o nascimento de uma ação revolucionária sem consciência revolucionária. Somente quando passa para a próxima fase da luta, a das lutas autogestionárias, é que se desenvolve a consciência revolucionária.

O último estágio é o das lutas operárias autogestionárias. Aqui se revela uma luta que garante a recusa do capital e da burocracia e a afirmação da autogestão. O proletariado não só recusa o domínio do capital e da burocracia, mas também assume a direção revolucionária da fábrica e da sociedade. Aqui não só se realiza uma ação revolucionária como também se manifesta uma consciência revolucionária. Esta consciência significa não somente a compreensão do processo de exploração capitalista, da burocracia enquanto forma de dominação, mas também da necessidade de constituição de uma nova sociedade, autogerida. A recusa do capital e da burocracia vem acompanhada pela associação coletiva que passa a autogerir as relações de trabalho e o conjunto das relações sociais. O combate ao capital e ao estado é acompanhado da consciência de que eles devem ser destruídos e que em seu lugar somente a autogestão pode garantir novas relações sociais, igualitárias. Nasce a consciência de um objetivo: a revolução social, o que pressupõe uma visão da totalidade das relações sociais e da articulação do movimento operário no sentido de generalizar o processo autogestionário. É imprescindível a percepção disto, pois o comunismo, tal como colocou Marx, não surge da mesma forma que o capitalismo, através do desenvolvimento da propriedade, e sim do domínio consciente dos seres humanos sobre sua vida social, ou seja, sem consciência revolucionária não é possível uma sociedade autogerida.

Assim, a luta operária passa por três estágios: espontâneo, autônomo e autogestionário. Esta é a tendência do movimento operário. Historicamente, este é o seu desenvolvimento natural. Porém, toda tendência, numa sociedade de classes, é contrabalançada por contratendências, isto é, a luta operária segue uma linha no sentido de passar da luta espontânea, para a autônoma até chegar à autogestionária, mas a ação das outras classes sociais dificultam este desenvolvimento e por isso há retrocessos históricos, e em muitos casos a luta autogestionária ao não concretizar a revolução, marca um retorno às lutas espontâneas e o mesmo ocorre com as lutas autônomas. Marx afirmou que a consciência de classe do proletariado, sua consciência revolucionária, surge através das lutas de classes. E isto foi confirmado pela experiência do movimento operário. Mas tal experiência também deixou claro que não é só a burguesia que serve de obstáculo ao desenvolvimento da consciência revolucionária, mas também o movimento “dito” socialista – socialdemocracia e bolchevismo – também servem para bloquear tal desenvolvimento.

Estes estágios da luta operária se reproduzem em todas as classes e grupos oprimidos da sociedade capitalista. As mulheres, os jovens, os estudantes, os negros, os imigrantes, etc., também realizam lutas espontâneas, que podem se desenvolver e se tornar lutas autônomas e autogestionárias. Uma mulher que se nega a prestar “serviço sexual” ao marido ou um estudante que “mata” aula manifestam a recusa da opressão feminina e estudantil. A transcodificação desta ação em discurso pode ser feita da seguinte maneira: a ação da mulher significa o questionamento de uma relação de coerção sexual legitimada por esta sociedade e que expressa a opressão feminina e a ação do estudante significa a recusa de um processo de escolarização coercitivo expresso na sala de aula. Estas lutas espontâneas e cotidianas se transformam em lutas autônomas quando inicia-se a tomada de consciência, se esboça a ação coletiva e se rompe com as organizações burocráticas que tentam dirigir a luta, seja o das organizações estudantis ou feministas, geralmente ligadas a partidos políticos. As lutas autogestionárias ocorrem quando se passa a ter uma visão da totalidade, o que pressupõe reconhecer a unidade das lutas femininas e estudantis com a luta operária e se coloca um objetivo revolucionário ao movimento.

O Movimento Revolucionário e os Limites do “Autonomismo”

Pois bem, até aqui colocamos os estágios da luta operária. Agora devemos relacionar o desenvolvimento da luta operária com o movimento revolucionário. O problema do espontaneísmo e do “autonomismo” se encontra justamente na incompreensão da passagem das lutas espontâneas e/ou autônomas para as lutas autogestionárias. Ao fazer o elogio das lutas espontâneas, o espontaneísmo reconhece a importância e o significado destas lutas, mas não compreende que é preciso desenvolvê-las, no sentido de constituir lutas autogestionárias. Ao se fazer a apologia do espontaneísmo, os espontaneístas podem assumir duas posições: a primeira é o imobilismo, pois as lutas espontâneas bastam a si mesmas, não devemos interferir nelas. Claro que por detrás disso pode estar toda uma concepção filosófica ou economicista, tal como uma filosofia do “impulso vital” ou a tese da crise final e inevitável do capitalismo. Não interessa aqui os fundamentos desta concepção e sim suas consequências políticas. O espontaneísmo enquanto concepção e “ação” política apenas reproduz as lutas espontâneas do proletariado, o que significa ficar nos limites da sociedade capitalista e da resistência cotidiana sem perspectiva de desenvolver uma luta revolucionária. Os limites de tal concepção são por demais evidentes para termos que aprofundar em sua crítica.

Outro equívoco se encontra no “autonomismo” (não me refiro aqui às diversas correntes autonomistas que surgiram historicamente, tal como o autonomismo italiano e português, que variam muito a sua concepção, alguns até aceitando a formação de um partido, tal como ocorreu infelizmente com o  Il Manifesto, e outros conseguem cair no equívoco que aqui denominamos “autonomismo” – entre aspas, para distinguir do movimento autonomista). O “autonomismo” faz o elogio das lutas autônomas do proletariado. Trata-se, pois, do elogio de uma ação revolucionária sem consciência revolucionária. Esta posição atua no sentido de ultrapassar as lutas espontâneas e atingir a autonomia operária. Significa apoiar a luta operária contra o capital e a burocracia sem buscar desenvolver a consciência revolucionária, ou seja, transformam os limites da luta operária em virtude e os reproduzem... Tal concepção/ação política é reproduzida por alguns anarquistas, autonomistas, e outras correntes políticas que atuam no movimento operário. Assim, contribuem com a formação da classe operária como presa fácil do reformismo ou bolchevismo, pois uma ação revolucionária sem consciência revolucionária pode se tornar uma ação contrarrevolucionária... Ficar nos limites da ação revolucionária sem desenvolver a consciência revolucionária é um problema que deve ser superado pelo movimento operário e cabe ao movimento revolucionário contribuir com tal superação e não com sua perpetuação. Esta superação significa desenvolvimento e não abandono.

Até concepções filosóficas foram desenvolvidas para sustentar o “autonomismo”. Foucault é o ideólogo do “autonomismo” par excellence. Ao lado dele, aparece a figura de Deleuze. Eles revelam que o poder é “totalizador” e que a ação revolucionária não... O intelectual deve se aliar ao proletariado e este sabe tudo, ou seja, a questão é apenas de aliança... Os prisioneiros, mulheres, etc., também sabem tudo e cabe ao movimento revolucionário se aliar a eles... O engajamento é possível, mas é do tipo “espírito de rebanho”, isto é, já que o rebanho é revolucionário por si só (...) então só nos resta segui-lo... Se ele caminha para o abismo... Aqui a recusa do vanguardismo, legítima e revolucionária, se torna reformismo inconsequente. Confunde-se negação do vanguardismo com reboquismo, ou seja, aqui o movimento socialista vai à reboque das massas. Se as massas desenvolvem apenas lutas espontâneas, devemos ficar neste nível também... Se se elevam ao nível das lutas autônomas, sigamos elas... Se a classe operária quer fazer uma greve para pedir aumento salarial e melhores condições de trabalho, então vamos apoiá-la! Mas não devemos dizer para ela que isto não basta, que é preciso fazer greve de ocupação ativa e autogerir a fábrica, acabar com a propriedade e com o estado que vai aparecer em sua defesa. Se ela quer é salário maior, então vamos cobrar isto do capital... Se os desalojados querem casa, então devemos apoiá-los! Mas não devemos dizer para eles que isto não basta, que é necessário romper com a mercantilização do solo e com as relações de propriedade e com o estado que as sustenta e virá defendê-la. Se eles querem é moradia, então isto basta... Nada de consciência revolucionária...

Estes são os limites do “autonomismo”. Se o espontaneísmo não ultrapassa os limites das lutas espontâneas, o “autonomismo” não ultrapassa os limites das lutas autônomas. São um exemplo de como grupos políticos se constituem como meros reflexos das lutas operárias, sem conseguir ultrapassá-las, sem ter visão do processo histórico e se limitam a percepção do que enxergam de imediato. Transformam romanticamente as lutas operárias em modelos de ação, sem perceber que a luta operária realmente revolucionária ocorrem nos períodos revolucionários, e são as lutas autogestionárias.

Para Além do “Autonomismo”

Desta forma, resta-nos superar o “autonomismo” e defender uma concepção revolucionária, que tem como base a luta operária autogestionária. Isto é fundamental para recolocarmos a questão da relação entre os grupos políticos revolucionários e o proletariado e demais classes/grupos que são exploradas/oprimidos.
A superação do “autonomismo” tem três elementos básicos: a) reconhecimento de que sem consciência revolucionária não há movimento operário revolucionário, e, por conseguinte, é preciso efetivar uma luta cultural no interior da sociedade burguesa; b) que sem o ponto de vista proletário e da totalidade não existe teoria revolucionária, e, consequentemente, grupos revolucionários; c) sem uma articulação nacional e internacional não é possível haver revolução proletária.

O problema da consciência revolucionária já foi colocado quando tratamos da luta operária autogestionária. A questão é que o movimento operário caminha para a consciência revolucionária espontaneamente, mas a ação contrarrevolucionária da burguesia e da burocracia bloqueia tal desenvolvimento. É por isso que somente nas lutas de classes, quando há o seu processo de radicalização, que ocorre a passagem para a consciência revolucionária. Mas isto pode ocorrer antes de tal radicalização e pode facilitar tal processo. Por isso um dos papéis mais importantes dos grupos revolucionários é a luta cultural. O grande reformista Gramsci revelou a força da hegemonia burguesa e a necessidade de uma contra-hegemonia. A ação pode ser reprimida pelo capital e pelo estado mas a consciência íntima de um trabalhador não... Marx já dizia que quando a teoria se apodera das massas ela se converte em força material e isto é uma colocação revolucionária e fundamental. Não basta estar junto dos operários, dos estudantes, dos negros, dos imigrantes, das mulheres, é preciso apresentar-lhes o que a teoria nos legou, senão não há sentido para a luta revolucionária. Uma tarefa fundamental para os grupos revolucionários é lutar contra a hegemonia burguesa.

Mas aqui não se trata de retomar a tese leninista de quem “sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário”, pois não estamos tratando apenas de teoria. A posição leninista é, como em tudo mais, burocrática. Para ele, o problema está na teoria científica elaborada pela intelligentsia, o que acaba justificando o partido de vanguarda. Para nós, trata-se da consciência revolucionária, que pode se manifestar na forma de uma teoria ou em outras formas menos complexas. Neste caso, o velho e bom Marx já havia dado a resposta: os revolucionários não formam um partido à parte do proletariado, não possuem interesses próprios, não pretendem “modelar” o movimento operário.  Seu papel é fazer prevalecer os interesses comuns do proletariado, acima das divisões nacionais, e representar os interesses do movimento em seu conjunto. Os revolucionários constituem a “fração mais resoluta” do movimento revolucionário e tem sobre o proletariado a “vantagem” da compreensão dos meios e fins do movimento geral do proletariado. O objetivo dos revolucionários, ainda segundo Marx, é a superação da supremacia burguesa (abolição do capitalismo) e instauração do comunismo (diríamos hoje, autogestão).

Aqui entramos no outro ponto. A teoria revolucionária é uma forma de manifestação da consciência revolucionária do proletariado. Os proletários, devido suas condições de vida concreta, possuem dificuldades de ter acesso ao saber teórico, seja o das ciências burguesas, seja o do próprio marxismo. Alguns conseguem, apesar desta situação desfavorável, ter acesso e não só isso como também desenvolver teorias. Mas para se produzir uma teoria revolucionária é preciso partir do ponto de vista proletário, que significa aqui o ponto de vista da classe proletária em sua fase de luta revolucionária e não de indivíduos desta classe. A partir da teoria revolucionária se articula uma visão clara dos objetivos do movimento operário e da totalidade. Se para os operários sua própria condição de classe os predispõe a desenvolverem uma ação e consciência revolucionárias, o mesmo não ocorre para os indivíduos não proletários. Estes, mais do que os proletários, precisam da teoria revolucionária. Somente assim poderão ser úteis ao movimento revolucionário. Só assim poderão efetivar uma luta cultural contra a hegemonia burguesa num sentido verdadeiramente revolucionário.

Aqui entramos em outra questão. A questão da totalidade das relações sociais e da sua compreensão nos remete a mais uma crítica ao “autonomismo”, seja foucaultiano ou qualquer outro. A teoria deve partir da totalidade e realizar uma síntese totalizadora, ao contrário do que pensa os “autonomistas” com suas “teorias regionais”. Isto se reflete na estratégia revolucionária, pois ao compreender, como bem coloca o próprio Foucault, que o poder é totalizador, o contrapoder, se quiser ultrapassar o estágio das lutas autônomas, ou seja, se quiser realizar a revolução proletária, deve também ser “totalizador”. Porém, o que diferencia o poder burguês e o contrapoder proletário não é o seu caráter totalizador e sim a forma que ele assume: o poder burguês é centralizador, burocrático, repressivo. O contrapoder proletário é descentralizado, antiburocrático, libertário. Se o poder burguês possui uma hierarquia, um centro, uma camada dirigente, o contrapoder proletário se fundamenta na organização não-hierárquica, sem “centro”, sem “camada dirigente”, mas articulada, seja no que se refere aos grupos revolucionários ou ao movimento operário ou, ainda, ao conjunto dos opositores do sistema capitalista.


A recusa da organização revolucionária significa ficar nos limites das lutas espontâneas e/ou autônomas, enquanto que o movimento revolucionário, se quiser ser realmente revolucionário, deve ficar ao nível das lutas autogestionárias, que pressupõe se aglutinar em uma organização autogerida. Somente assim superaremos os limites do “autonomismo” e contribuiremos realmente para a libertação proletária, a libertação humana.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Marxismo Autogestionário e Anarquismo



Marxismo Autogestionário e Anarquismo
Nildo Viana

Qual a diferença entre marxismo autogestionário (outros usam outros nomes, mas aqui cabe destacar que usamos marxismo autogestionário como sendo a forma/nome contemporânea do marxismo autêntico, que sempre foi “autogestionário” sem usar tal palavra e tão-somente para distingui-lo do pseudomarxismo, o leninismo e seus derivados e para expressar sua manifestação contemporânea) e anarquismo? Ao ser questionado diversas vezes sobre isso, então torna-se necessário explicitar de forma mais estruturada o que distingue um do outro.

Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que se trata do marxismo autogestionário e não de qualquer suposto “marxismo”, pois o pseudomarxismo leninista, trotskista, stalinista, maoísta, guevarista, entre outros, são deformações do caráter autogestionário do marxismo e por isso são muito mais distantes do anarquismo. O marxismo autogestionário tem proximidade com alguns elementos do anarquismo, especialmente seus princípios fundamentais. Estes princípios fundamentais seriam a tese da abolição imediata do aparato estatal, recusa e crítica das autoridades e formas de dominação e hierarquias sociais. O marxismo autogestionário também aponta para tais princípios, mas, no entanto, não é “anarquista”, a não ser que se reduza o anarquismo a isso. Da mesma forma, o marxismo autogestionário não se reduz a isso e tem outros princípios fundamentais, alguns que se encontram em algumas correntes específicas do anarquismo, outras não.

O marxismo autogestionário tem como princípios fundamentais os seguintes: a história das sociedades classistas é a história da luta de classes; o proletariado é a classe revolucionária de nossa época; a autoemancipação proletária (revolução proletária realizada pela classe operária e seus aliados) é a forma de realização da emancipação humana (humanismo revolucionário, concreto); a autogestão é a essência da nova sociedade que emerge após o capitalismo, não sendo “parte dela”, mas sua essência e se generalizando pelo conjunto das relações sociais; a revolução proletária só pode ser vitoriosa se abolir o Estado e o capital, sem a ideologia do “período de transição”; as organizações revolucionárias devem ter uma estratégia revolucionária e superar o reboquismo e o vanguardismo; a burocracia é uma classe social contrarrevolucionária e por isso deve ser combatida, bem como todas as organizações burocráticas (partidos, sindicatos, Estado, etc.); a luta cultural é uma das ações fundamentais a ser efetivada pelos grupos revolucionários; é necessário que a estratégia revolucionária unifique meios e fins e coloque como fundamental o objetivo final (autogestão social) e este determina os meios, bem como, derivado disso, é necessário evitar concessões contrarrevolucionárias (participação em democracia burguesa, por exemplo).

Assim, o marxismo autogestionário tem proximidade com determinadas tendências do anarquismo e afastamento de outras. O marxismo autogestionário é oposto ao anarcoindividualismo e ao anarcossindicalismo. O primeiro é devido ao seu caráter burguês (individualista) e o segundo ao seu vínculo com os sindicatos, organizações burocráticas (com exceção do início do capitalismo, seu período heroico antes da burocratização). Também é muito distante do anarquismo dogmático, que simplifica e reduz o anarquismo a determinadas ideias (ou pensamento de determinado pensador anarquista) que se tornam dogmas e motivo para recusar, julgar, condenar, todos os que não se encaixam nelas ou então tudo que não é “anarquismo” (na forma exata que o dogmático definiu, ou seja, sua corrente e/ou interpretação).

Em relação ao que denominamos anarquismo revolucionário, no qual o anarcocoletivismo e o anarcocomunismo se encaixam, as diferenças são bem menores, desde que sejam suas manifestações não-dogmáticas. Além do acordo no que se refere aos princípios fundamentais, há outros elementos em comum. Sem dúvida, isso não quer dizer, também, que não há diferença, mas elas são menores tanto na questão da quantidade quanto na profundidade.

Contudo, é preciso esclarecer que existem diferenças gerais entre o marxismo autogestionário e o anarquismo em geral, ou seja, incluindo todas as suas correntes. Isso ocorre devido ao fato de que o marxismo (de Marx, comunismo de conselhos, marxismo autogestionário) é expressão teórico-política do movimento revolucionário do proletariado, o que significa que é uma teoria cuja finalidade é a revolução e a autogestão. Nesse sentido, o marxismo autogestionário tem uma fundamentação teórica, desde a teoria da história de Marx, passando por diversas outras teorias produzidas por ele (com mais desenvolvimento a teoria do modo de produção capitalista) e seus continuadores, tal como a teoria dos conselhos operários de Anton Pannekoek e dos comunistas conselhistas, até as mais recentes e desenvolvimento e atualização posterior. O anarquismo é uma doutrina política e não uma teoria. É isso que permite que o anarquismo, mesmo em suas melhores expressões, acabe caindo no ecletismo, usando como base (metodológica e/ou teórica) ideologias burguesas (positivismo clássico, positivismo pós-estruturalista), bem como também desemboque com relativa facilidade, devido seu voluntarismo, no dogmatismo, praticismo, reboquismo, revolucionarismo.

Essa não é uma diferença pequena, pois quando o anarquismo acaba assumindo posições burguesas como base teórica ou metodológica, se compromete, pois isso acaba intervindo nas análises da realidade e, por conseguinte, na prática política. Uma análise equivocada da realidade gera tomada de decisões e realização de ações também equivocadas. As concepções metodológicas e “teóricas” (ideológicas) burguesas, produzidas pelas mais variadas ciências (especialmente as “humanas”) possuem toda uma base valorativa, sentimental, racional e de interesses que são intimamente ligados à sociedade capitalista e seu processo de reprodução. Não é preciso aqui resgatar o caráter do positivismo clássico de Comte e outros, que teve ressonâncias nas obras de Bakunin e outros anarquistas da época (Kropotkin, Reclus, etc.), e seu vínculo com a reprodução do capitalismo e essência conservadora.

Da mesma forma, o caráter contrarrevolucionário do pós-estruturalismo (“pós-modernismo”) é por demais evidente para que seja preciso esclarecer que, partindo de suas concepções metodológicas e ideológicas (supostamente “teóricas”) se poderia tomar decisões e executar ações revolucionárias. Obviamente que no caso do anarquismo revolucionário isso é um tanto minimizado, pois é unido com princípios revolucionários, mas que acaba se autolimitando por causa de tal base. Uma base metodológica e ideológica burguesa unida com uma doutrina revolucionária forma um ecletismo e dependendo de qual lado da balança pesa mais, pode se tornar, na pior das hipóteses, prejudicial para a luta pela libertação humana e, na melhor, algo limitado e contraditório, gerando obstáculos para o seu desenvolvimento geral. Claro está que isso ainda terá múltiplas nuances dependendo do contexto, conjuntura, indivíduos, etc. Porém, a superação do ecletismo é fundamental para que o anarquismo revolucionário assuma a posição que é coerente com seus princípios fundamentais.

Poderíamos supor duas possibilidades para tal superação. A primeira possibilidade seria adotar o marxismo como sua base teórico-metodológica, o materialismo histórico-dialético (o que inclui não só o método dialético, a teoria da história, como também a teoria do capitalismo). A recusa tradicional do anarquismo de usar o materialismo histórico-dialético é um forte obstáculo para a superação dessa problemática. Tal recusa tem como fonte os conflitos entre Marx e anarquistas no passado, por um lado, e pseudomarxismo e anarquismo posteriormente. Além disso, tem as posições distintas de Proudhon e Bakunin, entre outros, devido influência do positivismo. No entanto, Bakunin aceitou o materialismo histórico, apesar de não o ter compreendido adequadamente, confundindo ele com o materialismo burguês e com a concepção positivista, tal como se observa em sua discussão sobre materialismo e a questão dos “fatos”. Esse é um obstáculo a mais, principalmente depois da emergência do leninismo, expressão ideológica da burocracia, que deformou o materialismo histórico-dialético, de acordo com os interesses da burocracia partidária e capitalismo estatal russo e acabou se generalizando e tornando-se a versão dominante do “marxismo”. Este é outro obstáculo para uma real compreensão do materialismo histórico-dialético, o que traz a necessidade de retomar a produção de Marx, bem como de seus melhores continuadores (Labriola, Korsch, o jovem Lukács em alguns aspectos, Pannekoek, etc.).

A segunda possibilidade seria o anarquismo gerar, de forma original, sua própria base teórico-metodológica. Essa solução, no entanto, seria meramente formal, ou seja, uma mudança linguística, já que o materialismo histórico-dialético já apontou para os elementos essenciais nesse processo e seria apenas a mesma concepção sob outra forma, uma forma linguística nova para uma concepção já existente. A única vantagem dessa solução seria apaziguar as mentes dos anarquistas dogmáticos e não ter que se referir ao marxismo, algo tão pueril e infantil que só tem sentido, da perspectiva do marxismo autogestionário, por partir da ideia de que a luta e seu conteúdo é mais importante e pode fazer esse tipo de concessão por não afetar o processo revolucionário.

Nesse sentido, o marxismo autogestionário e o anarquismo revolucionário possuem proximidades e distanciamentos, pontos em comuns e pontos divergentes, sendo que em alguns casos a diferença é radical, expressa distintas posições de classe, a perspectiva proletária do marxismo autogestionário em confronto com a perspectiva burguesa ou de outra classe do anarquismo dogmático, do individualismo ou anarcossindicalismo; noutros casos, a diferença é reduzida, mas não abolida, pois devido a diversas outras diferenças menores, ação política imediata, conjunturas, idiossincrasias, compreensão da realidade, concepção de ação, diferenças terminológicas, etc., isso pode se intensificar ou minimizar.

De qualquer forma, em relação às tendências anarquistas que não são aliadas do proletariado revolucionário[1], a posição do marxismo autogestionário é de crítica e combate, bem como de esperança de avanço no sentido de uma perspectiva revolucionária, sendo que na prática depende das posições e ações concretas, qual tendência (emancipação humana via revolução proletária ou vanguardismo-reboquismo que reforça a contrarrevolução) fortalece nesse processo. No caso das tendências do anarquismo que se aliam ao proletariado revolucionário, a posição do marxismo autogestionário é de aliança e luta conjunta, desde que elas mantenham sua coerência nesse sentido.

Em síntese, marxismo autogestionário e anarquismo revolucionário são próximos, mas diferentes e o que interessa em sua aproximação é a contribuição com a emancipação humana, e o que os aproxima ou distancia é a proximidade ou distanciamento em relação a este objetivo, a revolução proletária autogestionária.




[1] Proletariado revolucionário significa a classe proletária autodeterminada, ou seja, que rompe com as relações de produção capitalistas, com o capital. Isso difere do proletariado como classe determinada pelo capital, ou seja, que busca apenas sobreviver ou melhorar sua situação no interior do capitalismo (realizando apenas lutas reivindicativas), que é ponto de partida para a luta e avanço no sentido de se tornar autodeterminado, mas que por isso mesmo é preciso travar uma luta para que avance nesse sentido e os militantes e organizações revolucionárias devem partir da perspectiva do proletariado como classe autodeterminada. Ficar ao nível do proletariado como classe determinada (se dizendo “anarquista”, “conselhista”, “situacionista”, etc.) é cair no reboquismo, uma posição reformista mesmo não tendo vínculos com as instituições burguesas. O voluntarismo, praticismo, anti-intelectualismo, entre outros elementos, são bastante próximos a estes posicionamentos, muito comum no anarquismo. Isso é produto de seu caráter doutrinário e não-teórico.